AGORA \ Crítica Teatral
SUÍTE nº 2
Michele Rolim (RS), São Paulo, 23/04/2018
Peça do diretor francês Joris Lacoste dá protagonismo à oralidade e não ao conteúdo
Estão em cena um quinteto de artistas, com harmonias criadas pelo compositor Pierre-Yves Macé. Crédito MITsp divulgação

Performatividade da palavra

O diretor francês Joris Lacoste, artista em foco da 5ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, abriu a programação com a montagem Suíte nº 2. O espetáculo inverte a suposta hierarquia do discurso teatral. A dramaturgia da voz não está subalternizada em relação à dramaturgia do texto. O protagonismo é da oralidade, e não do conteúdo.

O trabalho integra o projeto Enciclopédia da Fala (Encyclopedie de la Parole), iniciado há mais de 10 anos por Lacoste e um coletivo que reúne músicos, poetas, diretores, artistas visuais, atores, sociolinguistas e curadores. O projeto consiste em recolher e categorizar documentos sonoros – são mais de mil documentos – que envolvem diferentes tipos de discursos: de políticos, de programas esportivos, de cartas de amor etc. Essas gravações estão reunidas em um banco virtual, categorizadas por critérios que não obedecem a assuntos e sim a especificidades como cadência, musicalidade, timbre, origem, saturação ou melodia. O material pode ser acessado em www.encyclopediedelaparole.org (é também possível contribuir com o projeto enviando gravações para info@encyclopediedelaparole.org). Em 2009, Parlement (Parlamento) foi o primeiro dos dez espetáculos realizados a partir dos arquivos do projeto. Em 2013, a Enciclopédia da Fala deu origem a um ciclo de quatro suítes para coral (sendo Suíte nº 2 uma delas) que consiste em orquestrar diferentes discursos – que se ouvem ora isolados, ora superpostos. Tudo o que é dito no palco já foi pronunciado por alguém, algum dia e em algum lugar do mundo. Reproduzindo não somente os textos, mas a maneira de falar.

Em Suíte nº 2 estão em cena um quinteto de artistas – Bianca Iannuzzi, Crystal Shepherd-Cross, Nuno Lucas, Thomas Gonzalez e Vladimir Kudryavtsev – com harmonias criadas pelo compositor Pierre-Yves Macé. Conforme o espetáculo avança, esses discursos ditos se entrecruzam, se sobrepõem e são atravessados por outros, dando musicalidade ao que é dito e deixando o espectador se conectar cada vez mais com a sonoridade, fazendo com que não se busque sentidos em todas as falas. A opção é dar ênfase à oralidade, sem fazer uso da representatividade de pessoas ou situações de origem, reservando as imagens e fabulações à imaginação do espectador.

Ainda que a voz, o discurso dito, seja o protagonista, o espetáculo tem várias camadas que não ficam restritas à sonoridade e à musicalidade. No palco são faladas diversas línguas, como inglês, japonês, francês, árabe, holandês, alemão, português, espanhol, russo, croata, lingala, chinês, dinamarquês, sânscrito e urdu. Uma verdadeira babel (sinônimo da confusão de línguas), com a diferença que nesta há um entendimento a partir da harmonia da musicalidade.

Os discursos proferidos são transterritoriais, já que se dão entre diferentes nacionalidades e culturas. Portanto, haverá, inevitavelmente, por trás dos discursos ditos, diferentes identidades atravessadas do mundo social e cultural. São distintos universos revelados aos espectadores no jogo entre identificação e diferenciação. Além disso, quando o diretor propõe reproduzir ao vivo as gravações extraídas do arquivo da Enciclopédia da Fala, ele proporciona o deslocamento da palavra que foi dita em um determinado território e cultura, inserida em um espaço e um tempo diversos, para o local e ano da apresentação, no caso, o Brasil de 2018.

Quando, em nosso campo de escuta, um discurso foi deslocado de seu contexto e colocado ao lado de outro, ambos, inevitavelmente, se comunicam e se contagiam, não apenas um oferecendo sentido ao outro, mas permitindo o surgimento de novos significados pela aproximação deles. Mesmo que nenhuma fala tenha conexão com a outra, a aproximação de dois ou mais discursos, como se deu na encenação, pode promover tensões que isoladamente talvez eles não tivessem.

O espetáculo também coloca em pé de igualdade falas de pessoas que estão em espaço de poder com pessoas ditas “comuns”. Há um discurso do ministro das finanças português em 2012 sobre a crise e a austeridade, um trecho do reality show Big Brother 8 em Los Angeles, uma reclamação de um pedestre ameaçado pela polícia numa rua de Califórnia, uma queixa ao serviço da Telmex, uma empresa de telecomunicação de Bogotá. Reconhecendo, portanto, que é neste conjunto que está verdadeiramente representada uma visão de mundo.

É também do ponto de vista da narrativa não oficial que a história pode e deve ser contada e registrada. Vivemos uma guerra de discursos. Esse novo enquadramento, proposto pelo diretor, permite ao público escutar as palavras de maneira diferente, ou simplesmente permite escutarmos uns aos outros, sem, muitas vezes, nos entendermos. E isso já é um ganho. Na contemporaneidade, mergulhada em tempos de silenciamentos e obscuras falas, na qual a diversidade é censurada, ainda há muito ruído e pouca harmonia sonora. Que ao menos a arte possa nos permitir criar e coabitar um novo espaço.