AGORA \ Crítica Teatral
ENTRELINHAS
Michele Rolim (RS), de Salvador, 07/12/2017
Espetáculo é um manifesto frente à barbárie que as mulheres vêm sofrendo ao longo dos anos, por um sistema opressor
Jaqueline Elesbão apresenta imagens potentes sobre a violação e o abuso dos corpos femininos Foto: Leonardo Pastor

Tirem suas mãos dos nossos corpos

 

Quando um País é tomado por uma onda conservadora, como no Brasil, os grupos discriminados da sociedade, como as mulheres, os negros e negras, e os LGBT, são os primeiros a sofrerem perdas de seus direitos. Recentemente, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição que, na prática, proíbe o aborto em todos os casos. Essa mudança pode tornar o aborto ilegal em casos hoje permitidos pela lei, como no estupro, na anencefalia (feto com má-formação cerebral) e quando a vida da mãe está em risco.

O solo Entrelinhas, da dançarina Jaqueline Elesbão, apresentado no Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, é um manifesto frente à barbárie que as mulheres, vêm sofrendo ao longo dos anos, por um sistema opressor.

Esse corpo que vimos em cena é um corpo político que tem como potência os seus marcadores sociais: ser mulher e negra. A montagem retrata as lutas diárias das mulheres para afirmar a autonomia de seus corpos.

 A potência vem das imagens que denunciam a violação e o abuso desses corpos.  Para isso, o espetáculo apresenta diversas partituras cujas imagens são tão potentes que qualquer fala só viria a sublinhar o que já está posto. A quase ausência de palavras durante o espetáculo também evidencia a tentativa de silenciamento das mulheres ao longo dos séculos. E, principalmente, das mulheres negras que na hierarquia de gênero, são as que mais morrem e sofrem com a violência doméstica. 

O corpo dessa mulher está exposto de diferentes formas: ora nu, ora com uma cruz em frente à vagina, ora mutilado denunciando que dele são retirados seus desejos e direitos, e ora o mostrando como alvo de consumo. Também traz a máscara de flandres que era usada em torturas a escravizados.

Ocupando esse lugar na cena, Jaqueline garante, ao menos naquele espaço-tempo, uma visibilidade para questões tão importantes e urgentes de serem debatidas que não dizem respeito só a ela e nem somente às mulheres: dizem respeito, ou deveriam dizer, a todos.