AGORA \ Crítica Teatral
KAIALA
Michele Rolim (RS), de Salvador, 13/11/2017
Espetáculo afirma as religiões de matriz africana no conteúdo, na linguagem e na forma estética
Ator Sulivã Bispo conta, sob diferentes ângulos, como ocorreu a invasão de um terreiro que resultou na morte de Kaiala Foto: Teatro Vila Velha divulgação

Resistir sem concessões

Vivemos tempos de cerceamento dos direitos de ir e vir. Da censura. De falarmos e agirmos em nome de um “Deus”. Nestes tempos, nada mais legítimo do que dar voz a quem protagoniza as maiores intolerâncias. O espetáculo Kaiala, do Teatro da Queda, conta a história de uma menina iniciada no candomblé de tradição angola, que foi assassinada em um ato de intolerância religiosa.

O espetáculo, apresentado no Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC), traz à cena o ator Sulivã Bispo. Sulivã, conhecido pelo canal do Youtube Frases de Mainha, assina a dramaturgia ao lado de Thiago Romero, diretor do espetáculo. A ficha técnica é composta quase que exclusivamente por artistas negros, o que é importante dizer, porque o espetáculo vai tratar de religiões de matriz africana.

Sou branca e não tenho religião. Sou do sul do País. Uma das primeiras coisas que fiz ao chegar na Bahia foi ir a uma festa de terreiro. No espaço, brancos e negros celebravam juntos, o que dificilmente podemos ver no Sul do País, região onde, em muitos lugares, o “apartheid” parece continuar, já que os brancos insistem em perpetuar, “simbolicamente”, espaços em que negros não são bem-vindos.

Kaiala me pegou de surpresa. Me deu um banho de água fria. Como pode não haver tolerância em um dos estados que concentra os maiores números de negros e de adeptos das religiões de matriz africana? As notícias que chegam de invasão de terreiro, incêndios criminosos e agressões físicas aos praticantes me pareciam notícias isoladas em se tratando da Bahia.

E lá vem Salvador me mostrar que conviver não é tolerar. Kaiala nos mostra que cada vez há menos espaço para a diversidade religiosa brasileira. Mas será que já houve?

Por meio de uma narrativa ao estilo contação de histórias, Sulivã percorre com desenvoltura a trajetória da menina Kaiala que foi assassinada quando seu terreiro foi invadido por um grupo de evangélicos que queriam por fim aos cultos de matriz africana. Sulivã se desdobra em três personagens (a avó, o irmão de santo de Kaiala e a evangélica) para contar, sob diferentes pontos de vista, como ocorreu a tragédia de Kaiala.

A dramaturgia do espaço também agrega potência ao espetáculo. A montagem ocorreu no Espaço Cultural Barroquinha, que conserva ruínas da igreja. A igreja da Barroquinha, além de um templo católico, era um espaço ligado às tradições das nações africanas, sendo frequentada por mulheres “nagô-iorubás”, da nação Ketu, e pela população e trabalhadores locais.

É um espetáculo de denúncia, mas o trunfo do espetáculo está principalmente nos detalhes, em mostrar o cuidado que um irmão de santo tem com o outro, na escuta atenta das mulheres mais velhas que resgatam elementos da ancestralidade, nas vestimentas, na dança, etc. A história é narrada  com foco nos elementos do candomblé, presentes inclusive na linguagem. Na montagem há diversos códigos da religião, como nomes de orixás e seus respectivos significados, que os não iniciados na religião não conseguem assimilar. Isso leva a outra reflexão.

Os brasileiros desconhecem sua cultura. Quando nos deparamos com um espetáculo que tem elementos de religiosidade de matriz africana, parece que estamos lidando com uma obra cujos códigos não assimilamos. Não conseguimos assimilar esses códigos não por culpa do espetáculo, mas sim por nossa deficiência social de aprendizado da cultura afro-brasileira – apesar, de sermos um país com mais negros do que brancos

Portanto é necessário, cada vez mais, não fazer concessões e afirmar as religiões de matriz africana no conteúdo, na linguagem e na forma estética. É essa a escolha política que o grupo faz e que resulta em um espetáculo de resistência.