AGORA \ Crítica Teatral
REAÇÃO EM CADEIA: A GENTE SE LIGA EM VOCÊ!
Michele Rolim (RS), de Salvador, 06/11/2017
Performance realizada no FIAC Bahia deixa evidente o quanto permanecemos alimentando a engrenagem que move o sistema
Corpo de Roberta Nascimento é o principal elemento potencializador da performance

Qual é o nosso lugar no mundo?

A performance Reação em Cadeia: a gente se liga em você, de Roberta Nascimento e Talitha Andrade, traz à cena um corpo manifesto. Esse corpo político é habitado por diversas forças que refletem a sociedade na qual estão inseridos. A performance ocorreu dentro do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC), na Galeria do Goethe-Institut, e durou cerca de três horas. Assim como uma instalação, cada espectador definia o tempo de fruição da obra.

O corpo de Roberta é o principal elemento potencializador da performance. Mas de que corpo estamos falando? De um corpo objeto, entendido no mundo ocidental e patriarcal como frágil, vulnerável e manipulável, pois é o corpo de uma mulher. A performer tem seus movimentos limitados, pois seus braços estão envoltos como uma espécie de marionete. Somam-se a isso os olhos paralisados e uma compulsão por comida.

A fome física/emocional da performer é mostrada atrás dos gestos de Roberta, que está sempre levando algo à boca. É como se revelasse aquilo que nos falta e que não podemos colocar para fora, então colocamos para dentro ingerindo comida. Esse é um prazer, comer e beber, que ainda nos é permitido; mais do que isso, é estimulado pelas indústrias alimentar e farmacêutica. O quanto, portanto, existe de prazer verdadeiro nesse ato compulsivo?

Imersa numa avalanche de (des)informações, que incluiu a escuta de notícias e um painel posto atrás “desse corpo” com manchetes recentes, a performance leva o espectador a pensar que, se, por um lado, vivemos em um mundo submerso em constantes revoluções tecnológicas na área da comunicação, as quais impactam o imaginário social, como o uso das redes sociais, por outro lado o uso dessa comunicação acaba gerando uma disputa das narrativas. Para cada situação, há diversas interpretações possíveis e antagônicas, o que nos leva à paralisia. Roberta não reage, ou reage da maneira que consegue. 

Ela nos revela uma hiper-realidade espetacularizada [1], que aceitamos como verdadeira. Não percebemos (ou não queremos perceber) que, embora existam “prazeres”, ainda estamos em uma prisão. E, como tal, na prisão há controle, repressão e restrição de liberdade. A imagem visual produzida por Roberta é impactante e nos faz perceber o quanto é mais fácil, porém perigoso, permanecer alimentando a engrenagem que move o sistema. Tudo é feito para não nos movermos demais, para não provocarmos uma reação em cadeia, como sugere o título da performance. Se Roberta faz movimentos bruscos, vai romper com as cordas que seguram seus movimentos, mas também vai se machucar literalmente, pois há um risco real em cena, já que as cordas estão amarradas numa espécie de agulha ao braço da performer.

Existiria uma forma de ela sair dessa engrenagem ilesa? O quanto nos adequamos a uma rotina urbana frenética que tornou o tempo o objeto de consumo mais requisitado? Roberta empresta seu corpo para que possamos sair da inércia, para que possamos pensar em outras formas de estarmos no mundo que não a imposta por esta sociedade. Ela empresta seu corpo para que possamos estar à margem e nos tornarmos inadequados para esta realidade social; para que possamos escolher, de forma consciente, do que verdadeiramente temos fome e em que lugar queremos estar no mundo. Sejamos, então, marginais.

 

 

[1]Entendo hiper-realismo espetacularizado como na obra Simulacros e Simulações, de Jean Baudrillard, na qual o autor francês defende que a realidade deixou de existir e que passamos a viver a representação da realidade, esta propagada na sociedade pela mídia.