AGORA \ Crítica Teatral
FALA DO SILÊNCIO
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 23/09/2017
Cia Rústica permite ao espectador olhar de volta para o passado e compreender onde errou
Leonardo Machado e Priscilla Colombi interpretam Alexandre e Lucia, casal que mantém uma relação por sete anos. Foto Adriana Malchiori

Como e quando nos traímos?

Contar uma história de trás para a frente é quase como se nos fosse dada a chance de olhar de volta para o passado e compreender onde erramos e por que nos encontramos hoje em tal situação. A Cia Rústica com o espetáculo Fala do Silêncio permite aos espectadores essa reflexão.

Patrícia Fagundes assina a composição dramatúrgica da peça a partir do texto Traições (1978), do dramaturgo inglês Harold Pinter (1930-2008), vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2005. Ela, que também assina a direção, propõe o cruzamento do texto com fatos históricos e relatos de memórias recolhidos durante o processo de criação da montagem.

O espetáculo apresenta um triângulo amoroso formado pelos atores Evandro Soldatelli (Roberto), que substitui Lisandro Pires Bellotto, Priscilla Colombi (Lucia) e Leonardo Machado (Alexandre). Na trama, Roberto e Lucia são casados. Alexandre é o melhor amigo de Roberto e também amante de Lucia - os dois tiveram uma relação amorosa por sete anos. Após o rompimento, Roberto e Lucia encontram-se em uma mesa de bar e falam sobre o passado. Assim como no texto de Pinter, a história é contada de trás para frente, mas, em vez de se passar no período de 1978 a 1967, a peça percorre os anos de 2017 a 2007.

Enquanto nos deparamos com a história do triângulo amoroso, as cenas são marcadas por trocas de anos. Cada transição inclui uma narrativa em formato de vídeos (assinados por Mauricio Casiraghi) com imagens de episódios políticos e históricos marcantes do período.

Vimos e vemos um mundo, um Brasil, pouco a pouco se transformando. Isso é suficiente para fazermos um exercício de autocrítica e nos lembrarmos que os fatos não são gerados de uma hora para outra, existe uma narrativa, um tempo percorrido. As mudanças começam pequenas, e depois acabam tomando proporções absurdas, resultando em novas realidades, no caso da brasileira, difíceis de aceitar. Que silêncio é esse que estamos vivendo? E onde estávamos quando tudo isso acontecia? O que fazíamos? Talvez, como os personagens da peça, estivéssemos vivendo nossas vidas de classe média, preocupados com problemas muito mais da ordem do privado do que do público.  

Mas a grande sacada dessa contradição exposta no palco é a do não julgamento. E a de pensar que, sim, talvez fosse egoísta de nossa parte, mas isso também é humano, a vida é feita muito mais de pequenas histórias do que de atos heróicos. O que fazer a partir disso? 

A Cia Rústica não propõe respostas. Prefere envolver o público nessa história para que ele mesmo busque a suas próprias soluções, diferentes para cada um. Assim como em outras montagens, a Cia Rústica trabalha o teatro como um estado de encontro, no qual os atores compartilham com os espectadores um espaço temporário de trocas de energias e experiência. Cumplicidade seria a palavra. Eles entram na sala de teatro pela porta com o público, conversam com as pessoas e, aos poucos, vão criando e transformando esse espaço-tempo com uma postura muito mais performativa do que representativa, o que garante o ritmo do espetáculo.

Em Fala do Silêncio, o que move os personagens - e provavelmente os atores e a direção, emprestando verdade ao espetáculo - é o amor. Pode  até parecer piegas, mas em tempos sombrios como esses, o amor é revolucionário. São histórias de amor que estão em cena frente à barbárie de ódio em que estamos mergulhados. A atmosfera sensível da peça muito acontece também pela utilização da música como elemento sonoro e dramatúrgico com direito a guitarra e bateria em cena.

A Rústica mostra com isso que acredita muito mais nas micropolíticas do que nas macropolíticas, deixando o espectador levar para casa a pergunta: como e quando nos traímos?