NÃO ME TOQUE ESTOU CHEIA DE LÁGRIMAS – SENSAÇÕES DE CLARICE LISPECTOR
Michele Rolim (RS), PORTO ALEGRE, 23/09/2017
Através do corpo da bailarina, o espetáculo conduz o espectador a descobrir e a experienciar a identidade paradoxal de Clarice
Fabiane Severo interage com objetos, dando dinâmica à encenação. Crédito da foto: Nilson Sabino

O furacão Clarice

Como levar ao palco a obra e a vida de uma consagrada escritora como Clarice Lispector (1920-1977), através de movimentos? A coreógrafa e diretora Maria Waleska Van Helden e a bailarina Fabiane Severo encaram o desafio com boas propostas.  

A montagem Não me toque estou cheia de lágrimas - Sensações de Clarice Lispector é conduzida em três atos. O primeiro ato é marcado pelo nascimento, em que transparece a culpa que a escritora sentia por não ter salvo a vida da mãe, que tinha sífilis. Na época, acreditava-se erradamente que as mulheres que gerassem filhos seriam curadas. A dureza desse ato, que envolve gritos silenciosos e contrações em cima de uma mesa, dá lugar à delicadeza do segundo ato, que coloca em cena a Infância, vivida no Nordeste. Acompanhada pela musicista Simone Rasslan que toca teclado no palco, a bailarina faz brincadeiras que envolvem bolinhas de isopor e livros, e se estabelece um jogo de cumplicidade entre as duas no palco, tornando Rasslan parte da composição da cena. 

Já o ato de encerramento é a vida adulta, que mostra o fascínio de Clarice pela escrita, já que a autora declarou que, se parasse de escrever, morreria. São movimentos quase robóticos que fazem referência à compulsão da escrita.

O espetáculo da Geda - Companhia de Dança Contemporânea foi inspirado em uma entrevista que Clarice Lispector concedeu ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura, em 1977. Depois de gravada, Clarice pediu que a entrevista só fosse divulgada após sua morte. A escritora morreu de câncer em dezembro do mesmo ano, aos 57 anos. A entrevista foi ao ar dez meses depois. Além da entrevista, a pesquisa se valeu principalmente de dois livros, a biografia Clarice, do autor norte-americano Benjamin Moser, e Água viva, lançado pela escritora em 1973.

Através do corpo da bailarina, o espetáculo conduz o espectador a descobrir e experienciar a identidade paradoxal de Clarice, leve e, ao mesmo tempo, forte. Os elementos postos em cena são fundamentais para dar mais dinâmica à cena, como as projeções, a mesa, os papéis voando, a poltrona, os livros, etc. A montagem estreou na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul em 2011, o que  já possibilitava colocar o espectador em outro estado de recepção pois acontecia em um espaço não convencional e fortemente ligado à literatura. O desafio de fazer no palco, como o do Teatro do Sesc, é muito mais complexo.

A peça ganha quando o foco está justamente em trazer essas sensações ao público, e não em mostrar ou explicitar uma narrativa. Quase até o final não vimos Clarice no palco, mas, sim, suas sensações transmitidas pelos movimentos de Fabiane.  Não há a pretensão de criar uma personagem, e isso faz com que o público embarque junto na coreografia pelo viés da sensação.

Mas, o público é pego de susto quando, ao final, Fabiane, coloca um casaco, acende um cigarro e fala sobre solidão, tal como Clarice, e sai do palco repentinamente.  Essa ruptura causa um estranhamento no espectador que até aquele momento estava acompanhando a bailarina numa postura mais performativa do que representativa.

Ao final dos 50 minutos de apresentação, estamos mais próximos do universo de Clarice. Antes de deixar seu lugar na plateia no Teatro do Sesc, o público se depara com o que sobrou do cenário: está tudo fora do lugar, quase como se um furacão tivesse passado por ali. O que mais uma vez faz lembrar a literatura provocativa de Clarice, que desacomoda.