AGORA \ Crítica Teatral
ÍCARO
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 22/09/2017
Monólogo de Luciano Mallmann usa teatro documental para dar visibilidade à vida de cadeirantes
Mallmann criou o texto a partir de experiência própria e de outros portadores de deficiências físicas. Crédito: Fernanda Chemale

A vida não cabe em um prontuário

Ícaro, escrito e estrelado por Luciano Mallmann, representa o teatro documental na edição 2017 do Prêmio Braskem Em Cena. Mallmann é cadeirante desde 2004, quando sofreu uma lesão medular durante um treinamento de acrobacia aérea em tecido, no Rio.  A partir de sua experiência e das histórias pessoais de outros cadeirantes que conheceu, Mallmann criou os seis episódios do monólogo.

É o tipo de espetáculo que expõe seus criadores a um jogo de forças poderoso. Por um lado, a altíssima carga emocional dos depoimentos empurra a encenação para um tom francamente melodramático. Por outro, o fato de Mallmann estar sozinho em um palco vazio amplifica todo e qualquer movimento que faça, exigindo rigor e economia de atuação, tarefa complicada pelo tema de Ícaro e pelo fato de a própria vida do ator estar em cena. Ele próprio mostrou estar ciente desse desafio, quando afirmou em entrevistas “Não faço drama com a minha condição, muito pelo contrário”.

O plano de voo da diretora Liane Venturella consegue manter Ícaro numa rota equidistante de exageros. Não que se evite a emoção – na sessão de ontem, no Teatro do Goethe-Institut, era possível ouvir soluções na plateia durante algumas cenas. A trilha sonora de Monica Tomasi também assume sem inibição o papel de pontuar momentos de maior impacto. A comoção, de resto, é elemento indispensável na tarefa de conscientização da complexidade que é alguém estar com seus movimentos limitados. A ordem em que os episódios foram organizados, no entanto, evidencia cuidado para construir uma linha dramática que alterna níveis de tensão.

A montagem de 70 minutos começa com uma descrição das dificuldades práticas de quem está limitado – isso inclui desde a posição do interfone até a altura da cama. E evolui para temas como desencantos amorosos e relação mãe e filha, em que a condição de cadeirante surge mais como elemento de precipitação dos conflitos que como foco central. Esse deslocamento não enfraquece a montagem, antes reforça o ponto essencial de que eventuais limitações físicas não devem implicar qualquer redução na complexidade de um indivíduo. No meio disso, a história do suicídio, em que o ator pela única vez desvia os olhos da plateia, o que garante sobriedade e contundência para a cena.

Mallmann se sai bem em tarefas complicadas como interpretar personagens femininas, evitando entonações ou gestos estereotipados. Na cena que considero a melhor do espetáculo - quando um paciente machista, agressivo e arrogante quer impor suas vontades no quarto do hospital - talvez ele pudesse calibrar o tom. Diferentemente dos outros episódios, a narrativa aqui não é linear – o personagem delira, alterna os conflitos na realidade objetiva com as memórias de infância, vai e volta em seu discurso, cai da condição de macho alfa direto para a de criança desamparada, incapaz de tomar um gole de água sozinho.

Todos os cuidados de encenação ou no texto dramático, porém, seriam inúteis se Ícaro não fosse Luciano Mallmann. Quando ele diz “Mas está tudo certo”, sua transparência e convicção nos definem objetiva e afetivamente o que significa resiliência. Depois de vencer uma tempestade perfeita de emoções, o público sai balançado e orgulhoso de sua humanidade. O Ícaro mitológico não estava errado: de que vale sermos reféns dos limites? Um prontuário não vai definir o roteiro de uma vida.