AGORA \ Crítica Teatral
ILUMINUS
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 23/09/2017
Coletivo New School Dreams propõe jogo de claro e escuro para investigar corpo e movimento
Bailarinos portam lanternas que permitem fazer a iluminação em cena. Crédito das fotos: Natalia Utz

Iluminando um novo caminho

Com Iluminus, a New School Dreams consolida sua condição de um dos principais coletivos de dança gaúcho. O número de troféus Açorianos vencidos pelo NSD no ano passado é relevante – indicado em 10 categorias, venceu como melhor espetáculo, direção (Gustavo Silva), coreografia (Gabriella Castro, Gustavo Silva e Italo Ramos) e iluminação (Carol Zimmer) –, mas a originalidade da encenação de Iluminus é a melhor credencial do grupo.

A criação do espetáculo tem seu ponto de partida na iluminação. Carol Zimmer desenhou uma luz que vai além de suporte para as coreografias baseadas em dança urbana, constituindo-se em justo protagonista de Iluminus. São 50 minutos de um exercício permanente de claro e escuro, alternando a iluminação de palco com a de lanternas que os bailarinos levam ao pescoço, pelas mãos ou por pontas de hastes.

Não parece existir uma narrativa mais definida, embora algumas coreografias sugiram situações de estranhamento, fuga ou crise. Em verdade, o desenvolvimento dramático do espetáculo se modula pelo pulsar contínuo da iluminação. O recorte de silhuetas no fog, alternado com uma iluminação mais tradicional que garante tridimensionalidade aos oito bailarinos, parece fazer o palco do Teatro Renascença se dilatar e se contrair, sugerindo metamorfoses nos corpos.

Por outro lado, a falta de padrão de iluminação, as continuadas surpresas na variação de intensidade e posição dos focos de luz, que se deslocam frequentemente, impõem desorientação espacial ao espectador e alimentam um clima de prontidão. O clima de instabilidade se estende para fora do palco quando o diretor Gustavo Silva faz alguns bailarinos surgirem de repente em pontos insuspeitados da sala.

Iluminus não é só um grande show de luzes e de tecnologia. Os bailarinos se desdobram, com ótima execução, em movimentos enérgicos geralmente em ângulos retos, afinados com o clima sci fi que a iluminação e a trilha sonora sugerem. Seus corpos ora aparecem em silhuetas, ora apresentam-se naturais, outras vezes, especialmente no início do espetáculo, parecem massas disformes e irreconhecíveis. O figurino tem o cuidado de deixar nus os braços dos bailarinos, o que ajuda a desenhar os movimentos com mais nitidez.

A New School Dreams já tinha sido o destaque do Prêmio Açorianos de Dança 2014 com Retrógrado em 6D, surpreendendo com uma encenação em que os bailarinos interagiam com imagens projetadas em um telão no fundo do palco. Venceu como melhor espetáculo, coreografia, direção e cenografia. Com Iluminus, o grupo confirma que segue em frente na busca de uma nova escola.