AGORA \ Crítica Teatral
MOVIMENTO SOBRE RODAS PARADAS
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 21/09/2017
Usando um estacionamento como palco, In.Co.Mo.De-Te faz do humor sua arma política
Liane Venturella em ação como a promotora de eventos da Turismo Vitória. Crédito das foto: Adriana Marchiori

O riso contra a imobilidade

Movimentos sobre Rodas Paradas é como se a Cia In.Co.Mo.De-Te decidisse fazer um pit stop na jornada de rigor estético que já rendeu montagens provocadoras e sofisticadas como O Gordo e o Magro vão para o céu (2008), DentroFora (2009) e A Vida dele (2014). Pit stop talvez não seja o termo ideal: melhor usar recreio, reconhecendo o caráter lúdico, descompromissado e de envolvimento coletivo que o espetáculo dirigido por Carlos Ramiro Fensterseifer exercita ao longo de uma hora.

Parece que a In.Co.Mo.De-Te percebeu que precisava de um pouco de ar fresco, e decidiu fazer um espetáculo de rua, sem os rigores técnicos de luz e som que o grupo (ainda bem) se exige. O que está em cena é o ator, sua capacidade de improvisação, o contato estreito com o público, o prazer estético expresso no riso de cumplicidade dos espectadores. Mas, talvez como nunca, o grupo se coloca politicamente de forma explícita e direta.

Toda a encenação aponta no sentido de estabelecer uma ágora temporária, um espaço consagrado à cidadania. Movimentos... foi criada originalmente para ser encenada no pátio do Teatro de Câmara Túlio Piva, em Porto Alegre, sala pública fechada desde para reformas desde 2014  (vale dizer que, no momento, não há obra alguma em andamento). Para os espectadores que conhecem a história do Câmara, o fato de a peça ocorrer no pátio, entre faixas plásticas de “proibido passar” e cones espalhados pelo chão, materializa a ideia do espetáculo: a cultura corre o risco de ser interditada, não tem direito sequer a uma sala de espetáculo decente, a solução virá do congraçamento, mas também da postura ativa de artistas e de público.

É uma situação limite, mas a In.Co.Mo.De-Te prefere não chorar sozinha no cantinho – melhor rirmos todos juntos. O roteiro para isso são cinco esquetes escritos por Nelson Diniz, nenhum deles com grandes pretensões dramatúrgicas, quase todos centrados em conflitos que terminam por negociações. Os atores atuam em torno e mesmo dentro de carros estacionados no pátio do teatro. Para se ter ideia da irreverência, aponto alguns personagens: uma mulher que engole o dente do companheiro durante uma briga doméstica, um casal de atores vestidos de abelha atrasados para um evento, o motorista de um grande empresário que sublima sua frustração aliviando sua flatulência na cabine do carrão.

O desempenho de todo elenco é entusiasmante, assumindo os riscos e os prazeres da proximidade com o plateia, animando o texto com cacos. Nelson Diniz e Liane Venturella se destacam. Diniz, ao exercitar uma máscara a la Buster Keaton, oscilando entre a seriedade  e o humor rasgado. Liane brilha como a esposa que brinca com consolos, como uma promotora de eventos dentuça de agência de turismo, como a abelha-rainha que tenta impor algum senso prático. Esse é o motor de Movimentos...: o espectador mergulha dentro do espetáculo fascinado pela capacidade de o elenco transitar entre os mais diversos registros de atuação. É como embarcar em uma viagem pelo fascínio de acompanhar as transformações dos atores.

Mesmo sem helicópteros sobrevoando o pátio do Câmara, como ocorreu na temporada de estreia de Movimentos sobre Rodas Paradas, à época das manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff de setembro do ano passado, a peça segue potente. O detalhismo característico da companhia é o bônus da viagem, e se faz notar, pro exemplo, na paródia de canção sertaneja composta especialmente por Álvaro RosaCosta, emulando timbres de voz e de instrumentos da sonoridade piegas-romântica, e no efeito de curto-circuito nas luzes que precede a cena final, a sugerir os riscos que o Brasil enfrenta nesse momento.

A manobra final é eloquente. Depois de encerrar Movimentos sobre Rodas Paradas com uma cena estática, sob iluminação fria e precária, sugerindo escombros e apatia, o grupo convida o público a dividir comida, bebida e ideias. A ágora culmina em esforço e prazer coletivos, e é isso que pode nos tirar do imobilismo.

 

Fábio Cuelli, Álvaro RosaCosta e Liane Venturella em"Movimentos sobre Rodas Paradas". Crédito: Adriana Marchiori