AGORA \ Crítica Teatral
RAMAL 340: SOBRE A MIGRAÇÃO DAS SARDINHAS OU PORQUE AS PESSOAS SIMPLESMENTE VÃO EMBORA
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 17/09/2017
Montagem com direção de Jezebel de Carli e dramaturgia de Francisco Gick critica o mundo globalizado em que as pessoas estão cada vez mais distantes
Peça é assinada pelo Coletivo Errática, em atividade desde 2012 e oriundo do curso de teatro da UERGS Credito AdrianaMarchiori

Sobre o não pertencimento ou porque uma peça de teatro não é uma bobagem

Vivemos em uma sociedade que impõe vários padrões de comportamentos e de estilos de vida, e quem não se encaixa nesses modelos sofre com uma sensação cada vez maior de não pertencimento. É esse estado que perpassa toda a narrativa do espetáculo Ramal 340: sobre a migração das sardinhas ou porque as pessoas simplesmente vão embora, um dos concorrentes ao Prêmio Braskem deste ano.

Na peça, Sam (Gustavo Dienstmann), o homem que espera pelo cadáver do pai em uma estação de trem, ilustra bem esse sentimento quando diz que em 20 lugares diferentes do mundo existem grandes quantidades de pessoas matando umas às outras, portanto existem 40 lados, e ele não sabe a qual pertence.

A narrativa é composta de histórias como a de Sam e também como a de Ulisses (Francisco Gick), que arruma as malas enquanto sua mulher Penélope (Guega Peixoto) desarruma. Ou da mulher (Nina Picoli) que não consegue dormir por causa de um sonho recorrente ou ainda Raphaela (Diogo Rigo), que segue para o outro lado do mundo atrás de alguém que lhe escreveu uma carta. Tudo acontece enquanto Sirajudim (Gustavo Dienstmann) caminha sem parar atrás da filha e outro personagem foge atormentado por uma imagem de 30 anos atrás (Mani Torres).

Ao primeiro olhar, a dramaturgia pode parecer uma colcha de retalhos de impossíveis coincidências, mas, aos poucos, as tramas se desenvolvem paralelamente e sugerem pontos sutis de ligação entre uma história e outra.

Mas isso não importa. O que o jovem dramaturgo Francisco Gick mostra é que neste mundo globalizado as pessoas estão cada vez mais distantes. Falta uma verdadeira comunicação, não há escuta de fato entre os personagens, o que fica claramente representado na cena da discussão durante o café da manhã entre Penélope e Ulisses, repleto de ofensas. 

A humanidade está imersa em mundo regido pela velocidade, pela ruptura de barreiras territoriais e pelas disputas de poder. Um mundo cheio de caos muito bem materializado pelo cenário de Rodrigo Shalako, construído a partir de estrados de madeira.

Mas o texto só chega ao público porque caminha de mãos dadas com a encenação. Jezebel de Carli, diretora da Santa Estação Cia de Teatro e conhecida por espetáculos como Parada 400: convém tirar os sapatos (2003), A tempestade e os mistérios da ilha (2005), Hotel Fuck: num dia quente a maionese pode te matar (2010) e BRtrans (2013), usa o corpo dos atores para transportar o caos narrativo para a cena de forma contundente, conduzindo o espectador ao longo de uma narrativa também imagética. Tudo está ali. Na velocidade dos movimentos, na troca de cenas, no jogo entre os atores, Jezebel consegue extrair o melhor dos seus intérpretes. E não se omite dos riscos que uma encenação como essa corre, na medida em que exige sincronicidade entre o elenco e movimentos coreografados em cena. A leitura de rubricas, o ator-performer que faz e desfaz o personagem várias vezes, tudo isso também dá ritmo ao espetáculo, e o resultado é que o espectador embala na mesma velocidade que a montagem e a vida impõem.

Mas o texto também tem respiros que permitem ao público sair do turbilhão e refletir, como quando a atriz (Mani Torres), que faz o fotógrafo de guerra, senta na beira do palco e diz: “futebol, peixes, carne assada, tanque, bomba, míssil e você na frente da TV se perguntando como foi que veio parar aqui. É por isso, é por causa dessa sensação de falta de lugar frente à imensa confusão do mundo que a gente resolveu fazer isso aqui, uma peça de teatro, que é uma bobagem e não vai resolver nada, mas é o que a gente conseguiu...”

A peça é assinada pelo Coletivo Errática, em atividade desde 2012 e oriundo do curso de teatro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul/Uergs. Pela montagem Ramal 340 levou os prêmios Açoriano de Teatro 2016 de melhor espetáculo, figurino (Gustavo Dienstmann) e cenografia (Rodrigo Shalako).

Em meio a um momento político caótico, quando estamos submetidos a uma censura que esconde a ditadura da religião, enfrentando um momento de violação da Constituição Cidadã, com artistas sendo tolhidos em sua liberdade de expressão, uma peça de teatro como essa não é uma bobagem - é resistência.