AGORA \ Crítica Teatral
ACUADOS
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 15/09/2017
Montagem "Acuados", com direção coreográfica de Eva Schul, denuncia a violência contra a mulher
Durante 45 minutos, a plateia encara cenas brutais construídas com beleza visual e sonora, Foto: Natalia Utz

Corpo político em movimento

Nosso corpo é atravessado por afetos, ideologias, valores, culturas e normas sociais. Um corpo que é não só individual, mas também político já que se forma e se transforma por ação do coletivo. Na montagem Acuados, com direção coreográfica de Eva Schul, apresentada durante o 24° Porto Alegre Em Cena, isso é experienciado pelo espectador.

Os intérpretes-criadores Driko Oliveira, Emily Chagas, Everton Nunes, Fernanda Santos, Jackson Conceição e Victoria Benfica Terragno retratam por gestos e movimentos as relações violentas às quais as mulheres estão submetidas. Não por acaso, o espetáculo foi criado em 2016 no momento em que se comemoravam os 10 anos da Lei Maria da Penha.

A coreografia estabelece um paradoxo que potencializa o trabalho, pois aproxima incompatíveis: a violência e o belo (o conceito de belo aqui referido se dá a partir da visão de Umberto Eco¹).  Ao mesmo tempo em que esses corpos dançam ao som de óperas, eles se agridem.

Se a representação da mulher, por vezes, acabava reafirmando uma postura de vitimização da “condição feminina”, em outros momentos, a não-passividade - como no gesto em que uma das bailarinas tira o lenço que cobria os seus olhos e o coloca no homem - mostra que a mulher também pode se empoderar. No entanto, assim como na realidade, a força física do homem prevalece, apesar de a luta entre os corpos dos casais ser constante. E é nessa ambivalência que o espetáculo se constrói.

Podemos nos questionar se essa ambivalência seria uma das melhores formas de representatividade da mulher nos dias atuais. É uma gangorra entre o que causa a mera compreensão e compaixão no espectador com a desconstrução das expectativas e normativas de gênero.

Esse combate não cessa durante os 50 minutos da apresentação, sem fazer concessões ao espectador. A plateia encara cenas brutais construídas também com beleza visual e sonora.  Por vezes, há uma competição entre os movimentos e a interpretação facial dos bailarinos, prejudicando a fruição da cena.

Interessante também apontar que o título Acuados está no masculino e no plural e não no feminino e no singular, ressaltando o caráter de denúncia aos homens no espetáculo. Eva está ciente disso, tanto que, ao final do espetáculo, foi ao palco para frisar que se trata de um espetáculo que busca ressaltar e sensibilizar diferentes públicos para a questão da violência contra a mulher, especialmente no âmbito doméstico, e os desdobramentos que esta violência gera na família e nas relações sociais dos envolvidos.

Não é de hoje que a coreógrafa e diretora trabalha a questão do feminino em seus espetáculos. Ao longo de mais de 25 anos, muitas montagens da Ânima Companhia de Dança, criado por Eva em 1991, abordaram as dificuldades de relacionamentos, questões de hierarquia e os papéis que cada um exerce dentro de uma relação. Ao invés da sutileza, dessa vez Eva optou pela radicalidade.

E como não ser radical em um país, o Brasil, que ocupa a 5ª posição em um ranking global de assassinatos de mulheres. A radicalidade é um caminho, por vezes, necessário para sublinhar o que foi socialmente construído, conforme circunstâncias históricas e culturais específicas, e que é, portanto, possível de ser mudado.

 

¹No livro História da Beleza, o autor reúne ensaio sobre as transformações do conceito do Belo através dos tempos