AGORA \ Crítica Teatral
PARQUE DE DIVERSÕES
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 19/09/2017
Solo de Marcos Contreras concorre ao Braskem Em Cena discutindo solidão e suicídio
Marcos Contreras interpreta um anti-herói atormentado pelo som de uma roda-gigante. Crédito das fotos: Regina Peduzzi Protskof

Montanha-russa de emoções

Parque de Diversões tem muito de stand-up: um ator à frente de um microfone, discursando sobre sua vida, calibrando o discurso a partir das reações da plateia. Mas Parque de Diversões não tem nada de stand-up comedy. O monólogo estrelado por Marcos Contreras, escrito e dirigido por ele e por Diones Camargo, é muito mais um stand-up tragedy, viagem numa montanha-russa de emoções turbinada por barbitúricos e com final infeliz.

O protagonista vive uma situação limite. Insone e descornado, há 34 dias segue em vigília desde que um parque de diversões instalou-se ao lado de sua casa. O principal objeto de ódio é a roda-gigante, talvez por ela materializar o humor pontuado de episódios de euforia e de depressão do personagem. São 55 minutos para Contreras brilhar como o loser que compartilha com o público seu itinerário de excessos físicos – e de falta de afetos.

A grande sacada da direção, lapidada desde que o monólogo estreou em 2008, é contrapor uma encenação sutil à atuação mais que visceral – eviscerada – de Contreras. A cama onde o personagem se mortifica está montada na vertical. Luzinhas incandescentes de quermesse se estendem sobre o público, brilhando nos raros momentos de conciliação do personagem. A sonoplastia aporta ranger da roda-gigante e risos infantis em momentos estratégicos, estabelecendo um clima de pesadelo, quase de túnel do terror. A intimidade é facilitada por o público estar acomodado em cadeiras num salão da Galeria La Photo, livre para circular durante a peça.

Mas o insone segue firme, sorteando anfetaminas para garantir fôlego para mais uma confissão, reclamando que há dias em que as coisas teimam em nos olhar de frente. Assim ele constrói sua empatia com o público – extremado, confessional, pedindo socorro enquanto compartilha suas desventuras desamorosas.

Vencedora do prêmio de Melhor Dramaturgia no Troféu Açorianos do ano passado, Parque de Diversões não corre o risco de se tornar apenas a crônica de um drogadito. Contreras constrói um personagem ciclotímico, por certo, derrotado desde sempre (ele adora pontuar suas narrativas com um brusco “Acabou!”), impaciente e irascível, mas que desperta empatia pelo reconhecimento de sua sinceridade desarmada, ainda que em grande parte de origem química.

Talvez um videogame de última geração, talvez um amor sincero, talvez uma drágea branquinha com a listrinha amarela. Talvez a falência do parque de diversões que se instalou ao lado da cama dele. Talvez seja tarde demais, e é – o mundo todo cabe na tela desligada de uma TV de 80 polegadas, instalada no meio da sala do apartamento de alguém que não dorme há mais de um mês. O monólogo dá voz a todos nós, emparedados pela obrigação de girarmos e de fazer girar a máquina. Divertido, não é. Mas saímos confortados pela convicção de que não estamos sozinhos.