AGORA \ Crítica Teatral
PRATA-PARAÍSO
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 15/09/2017
Montagem do gaúcho João de Ricardo usa estética queer para recriar obra do americano Nicky Silver
Encenação da Cia Espaço em BRANCO tem palco descarnado, projeções no fundo palco e nudez. Crédito da foto: Adriana Marchiori

Crônica de uma extinção anunciada

Em uma entrevista em 2011 ao jornal O Estado de S. Paulo, Nicky Silver comentou os acentos que seu texto Pterodáctilos (1993) podia assumir quando levado à cena: “a diferença entre ser trágico e engraçado está nos detalhes: em uma inflexão de voz, em uma iluminação particular, ou naquele milionésimo de segundo de silêncio que só os atores de muito timing sabem fazer”.

Na montagem de Felipe Hirsch, que participou do Porto Alegre Em Cena de 2011, o tom de Pterodátilos era de comédia rasgada, por conta principalmente do talento de Marco Nanini, amparado pelo excelente cenário de Daniela Thomas, que se despedaçava à vista do público.

Prata-Paraíso, do gaúcho João de Ricardo, em cartaz no Em Cena 2017, também se inspira livremente no texto mais encenado de Silver para conduzir o espectador a um mundo de pesadelo, uma paisagem trash, um entrevero de pulsões sexuais que poderia facilmente ser apelidado de dança das cadeiras freudiana, ao mesmo tempo trágica e engraçada. O riso é raro e contido, a cenografia se resume a dois espelhos e a algumas tiras enormes de plástico transparente. Não há o que como se esconder. Não há como se esconder.

A trama parece um plano terrorista para implodir o conceito de família (pelo menos aquela tradicional, que se sustenta pelas aparências e no limite do cartão de crédito). Tod se afastou durante anos para estudar performance e retorna com uma bomba: é soropositivo. O frágil equilíbrio entre o pai ausente e abusador, a mãe alcoolista e consumista e a filha infantilizada, mas trincando os dentes para ser desvirginada, se desfaz. Sem esquecer o namorado da garota, que trabalha na casa de... empregada. Tod (“morte” em alemão) aporta como um anjo vingador, para acabar com a festa, para ajustar as contas, para expor o que se esconde. Não é moralista – é acima de tudo amoral. É uma força da Natureza.

Acompanhamos os 105 minutos de Prata-Paraíso como se fosse uma dissecação das pulsões internas da família, sem direitos a meias-palavras ou gestos pela metade (é a única atração do Em Cena 2017 com recomendação etária de 18 anos).  A ordem é compartilhar tudo com a plateia– os atores-performers se maquiando e colocando adereços, os mais íntimos detalhes dos seus corpos nus, o diretor operando o som, a luz e uma câmera de vídeo que projeta no fundo do palco detalhes de cena.

A estética assumidamente queer – fundada no esmaecimento dos limites de gênero – potencializa o caos sexual projetado por Silver. É como espiar o imaginário erótico de uma família, mas em clima de pesadelo, quando tudo se embaralha e se distorce. Nesse mundinho estranho, masculino e feminino não importam tanto – os protagonistas são pulsões que a ordem social se esforça por controlar.

A encenação de João de Ricardo elege habilmente a dubiedade como eixo. Os atores se revezam entre os cinco personagens, às vezes na mesma cena, sinalizando isso especialmente pela voz. Árias servem de trilha sonora para assédios e violências. Corpos transitam do queer ao infantil, ao macho. Os timbres de voz dos atores são manipulados por softwares, soando ora pueris, ora lúgubres. O próprio diretor toma parte no delírio ao dublar Eu sou rebelde, sucesso brega-confessional dos anos 1970 de Lilian.

Nos seus últimos minutos, a encenação de Prata-Paraíso perde ritmo ao depender apenas da resolução da trama. Mas a mensagem está dada com clareza. Somos como cobaias de deus (a canção com este título, de Cazuza e Ângela Rô Rô, marca um momento raro de delicadeza e introspecção em Prata-Paraíso). Como ratos em um labirinto, entretidos e desgastados pela eterna queda de braço entre instinto e civilização, tentando nos enquadrar em papéis que nos são atribuídos, somos pterodáctilos atormentados à espera da inevitável extinção.

 

Crédto Louise Carpanedo