AGORA \ Crítica Teatral
A COISA NO MAR
Mateus Araújo (PE), em Porto Alegre, 18/08/2015
O espetáculo mostra uma situação-limite que traz à tona as verdadeiras identidades
Eduardo Schmidt, Joana Kannenberg e Gabriela Poester estão no elenco de "A Coisa do Mar"

Os absurdos da gente

No meio do mar, o caos; no palco, a coisa chamada teatro. Cinco pessoas em um barco à deriva, após uma festa, são colocadas em xeque pelo inesperado. Pelo caminho do absurdo, transformam o indefinido em uma experiência universal, repleta de dilemas, distanciamentos e egoísmos. Uma situação-limite traz à tona as verdadeiras identidades. 

A Coisa do Mar, em cartaz neste mês no Auditório do Instituto Goethe, propõe uma reflexão sobre o “monstro” que habita nas gentes e coabita as relações humanas. O texto da dramaturga alemã Rebekka Kricheldorf olha para a falta de sentido da vida, usando-a como questionamento e impulso para a ação – mesmo a individual.

Naquele barco ao léu, as pessoas se revelam. Boris, editor-chefe de uma revista masculina, namorado de Carla, se autoafirma pela fama e pelo sucesso que faz com as mulheres. Por isso não se conforma com as investidas frustradas à garçonete Mimi. Carla e Berenice, aparentemente amigas, trocam farpas sobre qual delas conheceria a verdadeira felicidade. São relações de pura conveniência, superficiais e baseadas em interesses. Ronald, filho de Carla, é a figura mais ignorada pelo grupo por viver em um mundo particular. Mas é justamente o mais lúcido de todos frente ao inusitado.

A falta de rumo ganha dimensão maior na história de Kricheldorf quando surge “a coisa do mar” que coloca os tripulantes em iminente perigo. É aí o ponto de virada na vida de todos. A morte que se aproxima, a fome que chega, a luta pela sobrevivência e o esgotamento emocional revelam outras coisas entre eles.

O humor sarcástico e por vezes ébrio do texto da dramaturga alemã é sublinhado por Jéssica Lusia na sua primeira investida profissional como diretora. A influência do teatro do absurdo ganha carga com personagens caricatos, diálogos construídos como quadros cortados e cenas bastante imagéticas. Ronald, menino estranho para todos, olha seu próprio mundo, distante daqueles ao seu redor, sentado à gávea do barco. Ele vive ali por vontade própria ou imposição da sociedade. Essa escolha visual da marcação de cena é algo próximo, também, ao teatro do grupo Bagaceira, do Ceará, que em Lesados fez uma investida parecida, ao colocar cinco personagens prestes a pularem de um penhasco, no ápice de suas loucuras.

Destituídos de sentido, os personagens de A Coisa do Mar vivem como em uma grande brincadeira infantil. E a cenografia corrobora essa opção. O ilusionismo dos objetos usados remete o espectador a um quarto de crianças que simulam estar num barco. Um gravador de fita amplifica suas confissões.

Esse investimento em um registro “infantilizado” ganha ainda outra perspectiva, quando levada em consideração a juventude do próprio elenco do espetáculo. Com atuações bem-humoradas, o grupo de atores, em maioria, tem uma potência instigante, sobretudo a interpretação sarcástica das atrizes Gabriela Poester (Berenice) e Joana Kannenberg (Carla). As duas protagonizam papéis venenosos, que mesmo à beira da morte não deixam de espinhar uma a outra. Em uma das cenas, por exemplo, Berenice não se poupa de jogar na cara de Carla os distúrbios mentais do filho.

Ao fim, a percepção que se tem é de um teatro despojado e comprometido; ousado e disposto à subversão. Um trabalho que diverte, mas também nos instiga a pensar sobre o que está nessas águas que nos levam pela vida. O que está nessas águas que nos unem, embora estejamos tão dispostos a nos distanciar uns dos outros?