AGORA \ Crítica Teatral
NAS SOMBRAS DO CORAÇÃO
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 18/06/2017
Encenação de Camilo de Lélis reproduz esteriótipos, esvaziando o texto do dramaturgo alemão Wolfram Lotz
Camilo coloca em cena prostitutas interpretadas por atores vestidos de mulheres e pela atriz Denizeli Cardoso

No palco vale tudo?

Um dos pontos altos do 12º Festival Palco Giratório SESC/POA foi a estreia do projeto TRANSIT,  em que os diretores Alexandre Dill e Camilo de Lélis encenaram separadamente As Trevas Risíveis, do dramaturgo alemão Wolfram Lotz. Foi a estreia em palcos brasileiros da obra de Lotz. 

Wolfram Lotz, 35 anos, é uma das revelações da dramaturgia e da poesia alemãs. As Trevas Risíveis, escrito originalmente na forma de radioteatro, valeu a ele a escolha como Dramaturgo do Ano na Alemanha em 2015. A peça é inspirada no romance O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad, e no longa Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola. Basicamente conta a história de dois militares que sobem um rio no Afeganistão em busca do primeiro-tenente Deutinger, que teria enlouquecido.

Em entrevista ao site AGORA Crítica Teatral, Lotz  explicou que sua peça trata do desafio de reconhecer a si e lidar com aquilo que nos é diferente.  O que levanta a seguinte questão: qual seria a função social e a responsabilidade do teatro na reprodução ou no combate de discursos hegemônicos? A forma como um texto é levado à cena pode contribuir na reprodução e manutenção de padrões de desigualdade? Ou então desconstruir esses padrões? No palco vale tudo?

O projeto TRANSIT, inevitavelmente, deixou explícitas as muitas perspectivas sob as quais se pode colocar um texto em cena. Nesse texto, tratarei de Nas Sombras do Coração, a encenação de Camilo de Lélis.

É importante dizer que a minha escrita está atravessada da experiência que tive dentro do projeto TRANSIT, no qual Renato Mendonça e eu acompanhamos cada um o processo de criação do mesmo texto, ele o do Camilo de Lélis e eu o do encenador Alexandre Dill, o que me permitiu mergulhar no texto de Lotz, e também do encontro realizado no Goethe em que se debateram as duas encenações. E escrevo isso de uma perspectiva que acesso pelo lugar de mulher. 

Retomando a questão fundamental colocada por Lotz, em última instância: qual o seu lugar de fala? Em várias cenas, o dramaturgo, seja na voz dos personagens ou mesmo em 1ª pessoa, questiona se ele - homem, branco e europeu - tem autoridade para dizer o que está dizendo. Mais  do que isso: questiona  por que dizer certas coisas e não outras. Como no trecho: “Há pouco, no almoço, eu contei sobre a trama da peça para a minha mãe e do que se trata. De repente, ela me pergunta (entre outras coisas): ‘Não tem nenhuma mulher?' E é a primeira vez em que me dou conta de verdade disso! Como é louco (e deprimente) isso de eu montar outra vez uma história e todos os que atuam, todos os que falam são homens, e as mulheres têm que ficar caladas ou nem mesmo aparecem. Isso diz alguma coisa sobre como a gente, afinal, é limitado no pensar e também sobre a imagem que se tem do mundo e da sociedade, embora a gente acredite que escreve na contramão dessa imagem” -  trecho este que, inclusive, foi deixado de fora pelo Camilo.

Sabemos que todos nós temos uma bagagem cultural e uma forma de olhar o mundo, de encarar a realidade. Essa forma está permeada por noções de gênero, de classe e de raça. É inevitável que isso apareça, mas o que Lotz propõe é justamente olhar para isso e assumir a sua culpa dentro dessa estrutura. E como fazer isso no teatro? Eis o desafio. 

A montagem Nas Sombras do Coração não supera esse desafio. Primeiro porque não apresenta contradição. Lotz é contraditório ao execrar algumas coisas e mesmo assim praticá-las, mas ele faz esse mea-culpa. Na encenação de Camilo não há esse questionamento.  Em segundo lugar, faz-se necessário discutir os limites do humor nesta encenação. O uso da língua é e sempre foi político. Não existe linguagem neutra, e no teatro muito menos. E o “politicamente correto” serve para destruir essa ilusão. 

O palco também é, e espera-se que seja, um espaço de tensionamento para essas questões. Encontramos na linguagem adotada na encenação signos que reforçam estereótipos. Em um dos trechos da peça, por exemplo, Camilo coloca em cena prostitutas interpretadas por atores vestidos de mulheres e por uma mulher, a atriz Denizeli Cardoso. Os gestos da cena reforçam um imaginário patriarcal de objetificação do corpo da mulher. Essa imagem surge a partir do desejo do encenador, ela não está indicada no texto. 

Parece que a única forma encontrada de criticar certos estereótipos que aparecem no texto é deixar evidente no palco, ainda de forma exagerada, para mostrar que eles existem, mas isso já se sabe.

Camilo propõe uma encenação que não questiona a ideia de reconhecimento do outro. Tudo já está dado e imaginado na cena, sem brechas para o público. Em outras cenas tudo está explicitado demasiadamente, a encenação acaba não deixando espaço para o espectador embarcar no diálogo e nos questionamentos que o texto propõe. 

E por que isso é tão importante? Porque a essência do texto está justamente em questionar como vemos “o outro” e, sobretudo, como reconhecemos nossos preconceitos. O “outro” pode nos parecer estranho, mas como não gerar do estranhamento uma violência? Como olhar para esse “outro” com respeito?

Nesse ponto, está a maior fragilidade do trabalho, que bombardeia o espectador com imagens, que pouco expõe essa contradição do ser humano, pelo contrário, reafirma o status quo vigente, esvaziando o texto de Lotz.