AGORA \ Crítica Teatral
BRINCO DE PRINCESA
Patrick Pessoa (RJ), em Porto Alegre, 18/08/2015
Diretor Dilmar Messias não atinge equilíbrio ao evocar experiênca infantil
Débora Rodrigues atua em cenário que imita picadeiro de circo

Gangorra quebrada

A origem de uma obra de arte é sempre misteriosa. Alguns artistas apegam-se à ideia de inspiração. Outros, menos afeitos à mitificação de seu ofício e à idealização do gênio criador, afirmam que se trata de um trabalho como outro qualquer. Os dois pontos de vista não são mutuamente excludentes. A sabedoria popular ensina que as belas obras nascem do casamento entre inspiração e transpiração. A primeira move o artista; a segunda torna possível que a sua criação toque o espectador. Como em qualquer casamento, o equilíbrio entre os dois lados da gangorra nunca é perfeito, mas é desejável que seja buscado. Do contrário, a gangorra se quebra.

Brinco de princesa, solo da atriz e performer Débora Rodrigues sob a direção de Dilmar Messias, atualmente em cartaz na Sala Álvaro Moreyra, propõe uma possível resposta à questão acerca da origem da obra de arte. O texto do espetáculo, escrito por ambos, é bastante didático: a arte brotaria de uma experiência infantil do mundo. Ao entrar em cena, com um olhar embevecido e uma dicção deslumbrada que não abandonará em nenhum momento, a protagonista encara o público e confessa: “Tenho saudade das descobertas de menina. Brinca de tudo essa menina ávida que um dia fui, e às vezes ainda sou. Onde foi parar o encanto? Onde foi parar a magia?” Em seguida, ela enumera tudo aquilo que um dia imaginou ser e dá a entender que se tornar uma artista versátil seria talvez o único modo de, na maturidade, realizar os seus sonhos de menina.

A dramaturgia do espetáculo, com um tom autobiográfico, é construída especialmente para que a protagonista possa realizar seus sonhos de infância. Assim, em uma sucessão de cenas autônomas, entremeadas por longos intermezzos musicais para entreter o público durante as trocas de roupa, ela tem a oportunidade de exibir todas as habilidades que sonhou ter: toca saxofone, brinca de atriz, rola pelo chão de folhas secas, finge-se de palhaça, faz de conta que voa num balé aéreo. E, ao fim, ainda descobre o amor. A lição da peça é inequívoca: quem for capaz de manter viva a criança dentro de si há de por fim encontrar a felicidade.

Por mais fofa que seja a mensagem do espetáculo e por mais sinceros que sejam todos os envolvidos na produção, o fato é que fofura e sinceridade não bastam. Há um abismo entre criar uma obra de arte que trata da experiência infantil e criar um trabalho pueril na sua lida com a complexidade do mundo. A certa altura da peça, a protagonista menciona que, para ela, ser adulta sempre significou tornar-se escrava de uma série de “afazeres”. Embutida nessa denúncia, está a crença ingênua de que inspiração e espontaneidade são o suficiente para que sejamos amados. Mas nessa equação, falta um ingrediente fundamental: a transpiração. O esforço de justificar as próprias escolhas, de torná-las passíveis de serem compartilhadas com os outros. Quem rebaixa esse esforço está inevitavelmente condenado a ficar sozinho. Para uma criança com amigos imaginários, talvez isso baste. Para um adulto que aprendeu o quão delicadas são as relações humanas, o quão é difícil engajar os outros nos nossos próprios devaneios, não.

Para esse imaginário espectador adulto, hóspede imprevisto e desagradável, algumas questões surgem sincera e espontaneamente: é possível criar uma relação entre circo e teatro que possa ser dramaturgicamente justificada? Qual é o valor de uma dramaturgia pautada eminentemente pela necessidade de criar situações nas quais uma performer possa exibir suas habilidades? Como lidar com a dificuldade do palco vazio, das trocas de roupa, sem recorrer à solução fácil da música para preencher espaço? É mesmo necessário que todos os movimentos de uma partitura corporal sejam ilustrativos do que o texto já disse? Fazer poesia é escrever versinhos que rimam? Ser criança é realmente melhor do que ser adulto? A nostalgia da infância não teria algumas consequências políticas perigosas, como a prontidão para seguir qualquer papai salvador da pátria? Mais vale alienar-se em um paraíso perdido do que encarar de frente a opacidade do mundo?

Claro que nada disso importa se, como diz a protagonista a uma certa altura, “o que ela queria mesmo era ser notada”. Mas, como dizia o velho Heráclito, “aos mortais nem sempre é desejável obterem tudo o que querem”.