AGORA \ Crítica Teatral
LEDORES DO BREU
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 27/05/2017
No solo Ledores do Breu são mostradas as mazelas do analfabetismo, mas sempre alimentando a esperança de que a mudança é possível
Dinho Lima Flor em cena suscita o questionamento: como as pessoas que são analfabetas se relacionam com o mundo ao redor? Crédito: Claudio Etges

Esperança que insiste em cutucar

Por que falar sobre esperança em um momento marcadamente “sem esperança”? Houve quem fizesse essa pergunta ao educador Paulo Freire (1921-1997) quando ele publicou o livro Pedagogia da Esperança (1992). Essa mesma indagação pode ser dirigida ao ator Dinho Lima Flor, da Cia do Tijolo de São Paulo. No solo Ledores do Breu, com direção de Rodrigo Mercadante, são mostradas as mazelas do analfabetismo, mas sempre alimentando a esperança de que a mudança é possível. 

O espetáculo não à toa é inspirado no pensamento e na prática de Paulo Freire.  Dinho está sozinho no palco, mas parece vários. São muitas as interpretações e os estilos em cena. É como se, a cada personagem que Dinho presentifica para contar uma história, ele recorresse à pedagogia freireana. Ator e público aprendem juntos, um com o outro, e para isso é necessário que as relações sejam afetivas e que se considere a criação cultural como não individual, mas coletiva. E assim faz Dinho em cena.

Ledores do Breu se inicia do lado de fora da sala com textos de Frei Betto - reconhecido mundialmente por sua luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Em seguida, o público é convidado a entrar na sala. A interação e o afeto estão em toda parte do espetáculo, seja nas canções que o público acompanha, como Palavras, de Gonzaguinha, seja nos sons dos passarinhos que o ator pede para a plateia fazer, ou ainda nos abraços carinhosos que Dinho distribui ao convidar as pessoas para dançar.

Todo de branco, ele aos poucos vai se misturando com o carvão - o material que no espetáculo que permite a escrita das palavras em um papel pardo - e suscita um questionamento: como as pessoas analfabetas se relacionam com o mundo ao redor? Que chances têm elas de romperem com o que Paulo Freire chamou de “cultura do silêncio" e transformarem-se em autores da própria história?

Um vídeo de manifestações é projetado em cena. Mulheres carregam faixas em que se lê “Mais escolas e menos cadeias”, ligando a questão da ausência de escolaridade com a criminalidade, tanto por falta de oportunidades quanto também por privar essas pessoas de outro mundo e condená-las a mergulhar na ignorância, como descrito no texto Confissão de Caboclo, do poeta Zé da Luz.

O analfabetismo é um dos fatores da desigualdade e exclusão, mas Dinho também percorre outros meandros desse analfabetismo como o sentimento de culpa e de vergonha diante dos letrados. Também são citadas as dificuldades desse processo de alfabetização, que incluem desemprego, longas jornadas de trabalho e o não estímulo dos pais. Ou seja, a perpetuação de um ciclo. Mas, no meio disso tudo, surgem personagens na encenação implacáveis como a menina que é proibida pelo pai de estudar por ser mulher. Ela resolve aprender com sua amiga mesmo sem caderno e sem lápis, na areia e com graveto.

A Cia. do Tijolo fala de temas contemporâneos, mas sem perder a referência da cultura popular. O espetáculo foi escolhido para o circuito Palco Giratório Nacional e vai percorrer o País. Um espetáculo extremamente político sem se dizer político, mas que serve para despertar a consciência dos oprimidos e também dos opressores. Qual o seu papel como cidadão na perpetuação desse sistema?

Dinho Lima Flor faz da encenação não apenas uma travessia por vários textos, mas por diferentes formas de contar uma história e por estilos de interpretação nos quais ele está em estado cênico o tempo inteiro. É um corpo político que desacomoda, que afeta e que se deixa afetar. Naqueles 70 minutos, Dinho nos faz (re)acreditar que outro mundo é possível. Resta saber o que fazer para manter acessa a chama da esperança quando deixamos o teatro.