AGORA \ Crítica Teatral
OS CADERNOS DE KINDZU
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 26/05/2017
Grupo carioca Amok Teatro encena moçambicano Mia Couto em clima de sonho e de intimidade
Thiago Catarino e Tatiana Tiburcio em cena de "Os Cadernos de Kindzu". Crédito da fotografia: Claudio Etges

Jornada em busca do reconhecimento

A Amok Teatro já enfrentou textos potentes como os de Artaud (no premiado Cartas de Rodez, de 1998) e de Shakesperare (na elogiada adaptação de Macbeth, de 2004). Em Os Cadernos de Kindzu, uma das atrações do 12º Festival Palco Giratório SESC/POA, o desafio é o universo mágico e prenhe de imagens de Mia Couto.

Os Cadernos de Kindzu é inspirado no primeiro romance publicado de Mia Couto, Terra Sonâmbula (1992).  O modo como o escritor moçambicano embaralha histórias e multiplica sentidos, induzindo um clima leve de delírio e de delicadeza, às vezes rompido com violência, é perfeito para os talentos do Amok Teatro. O grupo carioca, caracterizado pela atenção ao trabalho de corpo dos atores e à experimentação de narrativas, potencializa a poética de Mia Couto propondo um espetáculo empático, humano, com emoção e humanidade de sobra.

Assim como em Salina (leia crítica neste link), apresentado dias antes também dentro da programação do Palco Giratório, o Amok desde o início deixa claro que o público está sendo convidado a se juntar a uma roda de conversa. O clima é de intimidade, música ao vivo, instrumentos acústicos, vozes educadas e melodias suaves. Mas o tema é pesado. Os Cadernos de Kindzu descreve a jornada de aprendizagem de um homem inconformado com a violência e a alienação em que vive.

O tempo de Kindzu é o da devastação causada por mais de 20 anos de guerra em Moçambique, inicialmente contra o colonizador europeu, depois em disputas fratricidas. A disputa também se dá no campo de batalha da língua. Kindzu deve se expressar em seu dialeto? Deve manter-se na tradição oral que caracteriza a cultura africana? Deve usar o idioma português? Deve escrever um caderno? O Amok mostra de que lado está: o elenco, fiel à musicalidade da prosa de Mia Couto, dá as falas no sotaque e no ritmo do português de Portugal, o mesmo do autor.

Os diretores Ana Teixeira e Stéphane Brodt, com assistência de direção da gaúcha Sandra Alencar, fugiram do clima sombrio original do livro. Concentrando-se na história de Kindzu, constroem um personagem ao mesmo tempo ingênuo e corajoso. Kindzu elege os naparamas, míticos guerreiros consagrados pela magia, como aqueles que trarão a paz e banirão os bandos criminosos que semeiam a morte pela sua terra. Na melhor tradição das narrativas, o protagonista vai encontrando personagens que progressivamente lhe aproximam da verdadeira solução. Não do final feliz, evidentemente, mas da conscientização de que as lutas são coletivas, mas também pessoais. Em uma das falas mais sensíveis, Kindzu fala que há guerras fora das pessoas, e há guerras dentro das pessoas.

A par de um espetáculo com mensagem oportuna e indispensável, o Amok Teatro nos oferece um show de técnica e um exemplo de estética redonda e bem resolvida. Para potencializar o texto de Mia Couto, o grupo carioca fundado em 1998 propõe uma encenação – como é de seu estilo – despojada. Esse é um dos pulos do gato. Praticamente não há cenários – um banco comprido, uma tela que serve para projeções, adereços, algumas cadeiras. A narrativa não perde com isso – ao contrário, o público se aproxima da cena na medida em que vê os atores se valendo apenas da voz, do corpo, da música e da imaginação para inventar lugares, situações, sentidos. Estamos todos no mesmo barco. É o apelo ancestral da roda de conversa.

A interferência no texto original de Terra Sonâmbula, fechando o foco sobre Kindzu, garante uma narrativa minimamente direta e eficiente para o palco. A jornada do herói ganha ares de humor com a ressurreição de um senhor português digna de comédia de terror e quando entra em cena uma velha prostituta cega. Mas também de puro horror quando do estupro de uma menina negra pelo seu protetor europeu.  A imaginação dos encenadores brilha nessa cena, ao colocarem estuprador e vítima não em contato, mas lado a lado durante a agressão sexual. Essa separação tem uma intenção didática de discernir bem quem é atacado e quem é algoz, o que só faz crescer a revolta contra a violência.

Há passagens estéticas inesquecíveis. Uma delas é quando Kindzu faz sexo com a delirante Farida. Os corpos não se exibem diretamente – suas silhuetas são projetadas sobre um pano. No clímax, as silhuetas parecem resumir-se a um só indivíduo. Em outra cena, um comerciante indiano e sua mulher, amigos de Kindzu, entram mar adentro para fugir do preconceito, rejeitados por serem estrangeiros. É um espetáculo à parte admirar como os atores incorporam em seus gestos o movimento do barco ao enfrentar as ondas.

É uma peça que termina com o sacrifício do herói, mas que sobrepõe a isso a fé de que a imaginação sempre vencerá. Mia Couto e o Amok também nos conduzem em uma jornada de conhecimento e - o mais importante - de reconhecimento. Ao nos reconhecermos como companheiros de roda de contação de histórias ou como espectadores em um teatro de Porto Alegre, talvez uma nação africana em luta para recuperar sua efetiva independência, quem sabe um indivíduo em busca de sua embaçada identidade, está aí um ótimo começo de caminhada. Assim como fez Kindzu, temos a lição de casa de escrevermos nossos cadernos.

 

Um dos recursos usados pelo Amok são projeções. Crédito: Claudio Etges