AGORA \ Crítica Teatral
TRILOGIA ABNEGAÇÃO
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 25/05/2017
Peças do grupo paulistano Tablado de Arruar transformam palco em arena do jogo político
Vitor Vieira interpreta prefeito morto por rejeitar esquema de corrupção em "Abnegação 2". Crédito da fotografia: Claudio Etges

A estética do incômodo

A Trilogia Abnegação, apresentada durante o 12º Festival Palco Giratório SESC/POA, marcou a presença de um teatro atento e sintonizado com seu tempo político. Abnegação 1, Abnegação 2 e Abnegação 3 são textos de Alexandre Dal Farra, dirigidos por ele e por Clayton Mariano, que dissecam grosso modo o processo de ascensão e desgaste do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores.

A capacidade de produzir polêmica da Trilogia do Tablado de Arruar é evidente. Durante a apresentação de Abnegação 1, houve espectadores que saíram durante a peça, injuriados com a visão crua e cruel, desmistificadora para dizer o mínimo com que o espetáculo coloca em cena cinco membros de um partido, reunidos na fazenda de um deles, para discutir como se livrar de uma acusação no Judiciário. Alguns outros espectadores decidiram não acompanhar o resto da trilogia nos dois dias seguintes.

Abnegação 2 é ainda mais contundente, ao descrever livremente a promiscuidade entre uma organização criminosa comum e a uma organização criminosa política que culminou com o assassinato do ex-prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002. Abnegação 3 traz ao palco cinco situações paralelas, habitadas por personagens que tiveram relações com o PT se defrontando com as novas gerações. Há desencanto de alguns, a constatação de que uma utopia se desgastou e uma chance foi desperdiçada.

A Trilogia Abnegação teve o timing perfeito em sua passagem por Porto Alegre. No palco e na plateia revezavam-se realidade e ficção, espectadores e personagens se confundiam numa amostra bizarra e real do Brasil contemporâneo. Parte do público quase se atrasou para as sessões porque havia manifestações contra o governo Temer no Centro da capital gaúcha.

Durante o debate que ocorreu depois de Abnegação 2, dentro da atividade Discutindo a Cena, algumas pessoas deixaram a sala apressadas para acompanharem a comoção que sucedeu a divulgação dos áudios de Michel Temer e de Aécio Neves. A gravação com o senador mineiro, especialmente, recheada de palavrões e desprezo pela República, em nada diferia de algumas cenas da Trilogia, em que militantes deblateravam alterados sobre como salvar seu pescoço e suas benesses.

O grande risco que a Trilogia Abnegação corre, e do qual seus criadores, especialmente o dramaturgo Alexandre Dal Farra, não fogem, é se colocar como uma voz crítica à Esquerda, especialmente ao PT, em uma quadra marcada pela radicalização e pelas táticas de desqualificação dos adversários políticos. É o tempo do “Quem não está do meu lado está do lado do meu inimigo”, o que leva alguns a acusarem a Trilogia de estar a serviço da Direita. O alinhamento automático acaba por ignorar o alcance da discussão política proposta, e mesmo a proposta estética em que o Tablado se engaja e se desenvolve.

É fácil apontar a coerência entre forma e conteúdo na Trilogia. Dal Farra contou que a origem das peças está ligada a uma sensação de incômodo, às vezes físico, experimentada pelo grupo durante os últimos anos por conta do desencanto com os tropeços éticos do PT (destaque-se que os tropicões não são privilégio petista, e se distribuem democraticamente por aliados e pela oposição). Os incômodos ético, ideológico, intelectual e emocional instalaram-se no corpo dos atores e se estenderam naturalmente aos outros elementos de encenação.

Independente de qual parte da Trilogia, a luz é dura, não sabemos se de laboratório ou se de delegacia. O cenário resume-se a cadeiras e uma mesa quando tanto. Nas raras vezes em que há uma trilha sonora, ela é tocada em altíssimo volume. Não há chance para melodrama. Um ator quase se afoga em farinha de trigo, simulando uma pequena tempestade de cocaína. Há falas esbravejadas, algumas inaudíveis.

Dal Farra e Mariano cuidam de marcar cada Abnegação por gestos e movimentos de palco bem específicos, denotativos do que caracteriza cada espetáculo. Dessa forma, Abnegação 1 é marcada pela órbita de vários personagens em torno daquele que seria o líder. Em Abnegação 2, pelo menos dois personagens vomitam, como que explicitando quão intragável é a tarefa de renunciar à inocência. Em Abnegação 3, os personagens quase todo o tempo estão sentados e com os braços soltos ao longo do corpo, numa evidente atitude de conformismo e abulia.

Um dos pontos de questionamento à encenação de Trilogia é que há segmentos de realidade em meio à ficção. Abnegação 2, para exemplificar, começa noticiando a execução de Celso Daniel, e se encerra com o que seria o irmão do ex-prefeito falando. Um dos “amigos” de Celso Daniel se chama Sergio – como não deduzir que é Sérgio Sombra, acusado pelo Ministério Público de organizar o sequestro e morte do político.

Dal Farra argumenta que o tom inflamado, quase demencial que os atores imprimem às falas especialmente nas partes 1 e 2 desarmaria qualquer pretensão de que o que está em cena seja um documentário. Ele prefere definir como um documento de como ele e seu grupo vivenciam essa crise. Dal Farra praticamente explica sua posição em cena na boca do personagem irmão de Celso Daniel, que diz algo próximo de “Não vou ser oposição e nem tenho medo de ser acusado de ser usado pela oposição”.

Em meio a uma batalha política medida em muitíssimos decibéis, corre-se o risco de não atentar para ao menos dois pontos importantes. O primeiro, quando a Trilogia expõe o papel via de regra secundário e humilhante como a mulher participa no jogo político. O machismo e a misoginia é tal que em Abnegação 2 um dos personagens masculinos justifica sua intenção de enfiar o pênis na mulher porque seria uma “continuidade” do jogo político.

A segunda questão surge durante uma conversa em família durante Abnegação 3, quando se discute o que é privado e o que é profissional. É como se a utopia pertencesse à esfera individual, mas o gerenciamento prático desse sonho - que já está valendo tornozeleiras eletrônicas para alguns - fosse próprio do campo profissional. Na verdade, um hábil artifício para que se guarde as convicções no armário.

Dal Farra, autor também de Branco: o Cheiro do Lírio e do Formol, que estreou na 4º MITsp em meio a muita polêmica por tratar da questão de etnia, na verdade não pode ser acusado de fazer o jogo da Direita. A não ser que nos contentemos em analisar a Trilogia Abnegação superficialmente. Assumido como tendo convicções de Esquerda, em sua obra o diretor e dramaturgo parece saudoso da utopia, convencido de que há indivíduos que mantêm sua fidelidade aos ideais políticos mais puros e de que o sistema de poder é mestre na tarefa de desandar, desvirtuar e desorientar. Note-se que há sempre a figura de um militante sincero e inabalável, e que nos episódios 1 e 2 temos como que dois mártires – no primeiro, o líder se suicida; no segundo, o então prefeito é assassinado. A miopia política, entretanto, vai sempre enxergar a autocrítica como demonstração de fraqueza frente ao inimigo.

A Trilogia Abnegação não abre mão de incomodar, e isso é fundamental. Ainda que possa ser cobrado por trafegar em uma zona cinzenta entre ficção e realidade, o talento de encontrar a forma mais adequada para expor a grande ressaca que as forças de Esquerda estão experimentando somado à coragem política e artística de levá-la ao palco são valiosos em um momento de radicalização e de intransigência de posições. Até porque, quando o teatro tiver de submeter-se ao senso de oportunidade política, evitando formas ou abordagens que possam ser “aparelhadas”, inibe-se o real poder transformador da arte.


André Capuano e seu banho de pó em "Abnegação 2". Foto: Claudio Etges