AGORA \ Crítica Teatral
SE EU FOSSE IRACEMA
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 16/05/2017
Grupo carioca 1COMUM coloca a questão indígena em cena e discute fronteiras do teatro político
Adassa Martins vive de uma anciã índia a uma jovem fascinada pelo capitalismo. Crédito: Clara Assenato – Estudio Claudio Etges

O Velho Oeste é aqui

A edição 2017 do Festival Palco Giratório SESC/POA é pontuada por espetáculos que evocam e discutem conflitos étnicos e de gênero. O monólogo Se Eu Fosse Iracema, do grupo carioca 1COMUM, se dedica à questão indígena e merece elogios não apenas pela relevância e urgência do assunto, mas também pela habilidade com que construiu um espetáculo que se equilibra habilmente entre o manifesto contundente e o estímulo sensível.  

A começar pelo nome.  Em resposta à pergunta “De onde você está falando?”, onipresente nos debates políticos de hoje em dia, o dramaturgo Fernando Marques se vale do condicional para deixar claro que seu texto é uma criação de brancos que não pretendem falar em lugar dos indígenas.  Aprofundando mais um pouco, percebemos que o título Se Eu Fosse Iracema põe em xeque nossa idealização da imagem dos índios quando cita Iracema, a “virgem dos lábios de mel” de José de Alencar, na verdade um termo nada indígena construído a partir de um anagrama da palavra de origem europeia América...

A encenação, basicamente, define dois contendores de uma disputa bem atual (só para lembrar, no último dia 25 de abril, indígenas e policiais se enfrentaram trocando flechas e bombas de efeito moral frente ao Congresso Nacional). De um lado, o índio, desalojado de suas terras ancestrais, vítima de genocídio, queimado em paradas de ônibus, privado de suas tradições. De outro, o capitalismo selvagem no mau sentido, das mineradoras e das serrarias inescrupulosas, dos grileiros insaciáveis, da burocracia que procrastina ad infinitum a demarcação das terras indígenas.

O diretor Fernando Nicolau alterna cenas que deixam claros o conflito e sua posição. Na voz e no corpo da ótima atriz Adassa Martins se descreve o ataque de uma formidável força policial a 100 famílias indígenas desarmadas, se cobram com ironias as promessas ao povo índio consagradas na Constituição de 1988. O público sente a força de falas como “Aqui é o velho oeste / No velho oeste o homem branco mata o índio / Aqui é o século XXI / No século XXI o homem branco mata o índio / Não se tolera o que seja anacrônico”.

O impacto se deve fundamentalmente à presença de Adassa. Com os seios nus à tradição índia, vestindo uma saia de látex modernosa e um colar que sugere uma lâmina de abater árvores, ela incorpora as contradições de um branco assumir a voz do indígena, e o faz com fé e técnica. Numa das cenas, alterna-se com talento entre uma velha índia de rosto deformado pelo tempo e pela emoção e uma jovem branca deformada pelo capitalismo de resultados.

Impossível não se deixar impressionar pelas denúncias. Mas o modo e a medida que esta ação política explícita influi sobre os espectadores merece reflexão. O dramaturgo alemão Wolfram Lotz, que terá seu texto As Trevas Risíveis encenado separadamente pelos diretores Alexandre Dill e Camilo de Lélis dentro da programação do Palco Giratório, em texto postado no site Agora Crítica Teatral, questiona o teatro que se aproxima demais do discurso de denúncia já presente na mídia e na esfera política. Por outro lado, as afrontas são de tal escala que a denúncia direta é imperativa. Se Eu Fosse Iracema trilha uma terceira via.

A linda cena inicial, em que Adassa narra em guarani uma lenda indígena, ladeada por dois fachos de luz que parecem limitar o terreiro de uma aldeia, é impressionante. Logo depois, na que seria a imagem definidora do espetáculo, corre as mãos freneticamente sobre seu rosto - realinhando os traços fisionômicos? Aplicando pintura de guerra? Desesperando-se?

Em outra passagem, o ritual índio de crianças e seus padrinhos se isolarem por uma noite para a cuidadosa escolha do nome daqueles é confrontado com a bizarria de atribuir nomes brancos aos indígenas. Fica claro o alerta essencial: o genocídio não se faz exclusivamente pela truculenta eliminação física, mas também pelo sutil borramento da identidade. É fácil entender - lembre da palavra Iracema.