AGORA \ Crítica Teatral
OS ARQUEÓLOGOS
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 12/05/2017
Destaque do Palco Giratório, dramaturgo Vinicius Calderoni propõe garimpo de emoções cotidianas
Calderoni e Guilherme Magon são arqueólogos em um futuro que rejeita sentimentos. Crédito: Claudio Etges/Palco Giratório

A mágica está nos detalhes

Engana-se quem crê que a arqueologia se baseia exclusivamente em grandes feitos do homem, realizações na escala das pirâmides. Na maior parte das vezes, os objetos mais significativos dessa ciência são produto do cotidiano: restos de comida que se constituem em pistas para a dieta de grandes povos, inscrições num vaso que desvendarão costumes milenares, um talher que explica o desenvolvimento de complexas tecnologias... Detalhes que a mente treinada percebe e decifra, e nunca despreza.

É esse olhar que o dramaturgo Vinicius Calderoni quer provocar em quem assiste a "Os Arqueólogos", do grupo paulista Empório de Teatro Sortido, uma das atrações do 12º Palco Giratório Sesc/POA. Coerente com o princípio da delicadeza e da atenção às minúcias próprio da Arqueologia, ele constrói um texto que se dispõe em camadas a serem desbastadas pelo público, em progressivo aprofundamento do texto, que se apresenta à primeira vista como uma comédia original, mas ligeira.

Na primeira parte, as grandes estrelas são dois narradores (Calderoni e Guilherme Magon) que descrevem situações do dia a dia de uma grande cidade de hoje com hipérboles e maneirismos vocais característicos do mundo dos esportes. Valendo-se especialmente dos jargões e entonações do futebol e do boxe, narram o bate-boca de um casal, o esforço de um pai para ensinar o filho a manejar uma câmera fotográfica analógica, o desempenho de um menino malabarista de sinaleira. Em seguida, Calderoni e Magon dão um salto no tempo e passam a encarnar dois arqueólogos do futuro no afã de decifrar vestígios dos humanos que acompanhamos na primeira parte da peça, por eles descritos como habitantes da "Idade do céu aberto".

O talento cômico de Calderoni e de Magon ganha o jogo nos primeiros minutos. A partir daí, o prazer é escavar junto com os arqueólogos. A primeira descoberta é o eficiente conjunto cenografia/iluminação criado por Maria Bentivegna. Dispondo dezenas de caixas de papelão pelo palco, ela garante desníveis que facilitam o trânsito dos dois atores entre os vários personagens. O diretor Rafael Gomes arma com habilidade sua estratégia para valorizar os momentos mais importantes de "Os Arqueólogos". Embalando o espectador numa aparente sucessão de pequenos dramas edulcorados pelo humor, ele potencializa o impacto de quando irrompe a dor e o incontornável.

O jogo de espelhos é perfeito: na primeira parte, os exageros emocionais da crônica esportiva; na segunda, a frialdade dos pesquisadores que rejeitam tudo aquilo que não sejam fatos palpáveis, descartando palavras como “mágica” e “abstrato”. Depois de 60 minutos de espetáculo, se assenta a convicção de que o olhar atento e sensível é nossa principal ferramenta de vida. Certo que acompanhamos com paixão e terror a marcha dos séculos, os grandes embates, dramáticas decisões - mas instantes mágicos, como um abraço que demora mais do que o protocolar, podem e devem mudar uma vida, ou mais. Não precisamos ir tão longe como o narrador que se esfalfa para colorir e inventar emocionalmente uma singela competição esportiva, mas não devemos nos conformar em simplesmente jogar o jogo à espera do apito final.    

Singelo, hábil, emocionado e... mágico em alguns momentos, "Os Arqueólogos" incentiva a escavar as tantas camadas de realidade que nos impedem de perceber o que realmente importa. Um gol de placa.