AGORA \ Crítica Teatral
MATELUNA
Michele Rolim (RS), de São Paulo, 21/03/2017
Chileno Guillermo Calderón segue tensionando os limites da ação política do teatro
"Mateluna" discute figura de um ex-guerrilheiro que combateu a ditadura chilena. Crédito da foto: Fundacion Teatro a Mil-Felipe Frede

Teatro como documento vivo

A peça “Mateluna” discute, mais do que qualquer outra coisa, o papel do teatro na ação política, sem descuidar da experiência estética do espectador. A direção e a dramaturgia são do chileno Guilherme Calderón, que retorna à Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp depois de ter participado na primeira edição do festival com “Escola” (2013), peça ambientada em um centro de formação de guerrilheiros urbanos durante o regime miliar no Chile.

Calderón se caracteriza por praticar um teatro político, ativista e de resistência, que busca auxiliar na compreensão das ditaduras que os países da América Latina enfrentaram e, de certa forma, ainda enfrentam. A temática é recorrente na obra do chileno, a exemplo da trilogia composta por “Neva” (2006), “Classe” (2008) e “Dezembro” (2009).

“Mateluna” tem seu gênese nos ensaios de “Escola”. Foi durante os ensaios desta peça que Calderón conheceu o ex-guerrilheiro Jorge Mateluna, militante da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, um dos movimentos que lutou para derrubar o regime de Pinochet (1973-1990). A história do ex-guerrilheiro foi agregada à obra. No entanto, meses depois de encerrados os ensaios, já com a peça em cartaz, Mateluna foi detido sob a acusação de ter assaltado um banco, crime que aparentemente não tinha intenções políticas, diferente de quando foi condenado a 14 anos de prisão por participar de outro roubo a banco para financiar ações guerrilheiras.  

Esse paradoxo é o ponto de partida para a criação de “Mateluna”. O primeiro ato é amparado por uma série de dúvidas sobre a motivação que teria levado o ex-guerrilheiro a cometer o assalto. A montagem começa com os atores apresentando a figura de Jorge Mateluna e, em seguida, mostrando uma cena em que um professor de guerrilha ensina a construir uma bomba, numa clara alusão ao personagem-título. Essa mesma cena estava presente em “Escola”.

Neste momento, o diretor aproveita para lançar questionamentos bem atuais sobre a política na América Latina, especialmente a crise no campo da esquerda, que deflagra pensamentos não alinhados sobre quais a melhores estratégias para enfrentamento do campo conservador. Nessa passagem, podemos perceber uma das principais características do teatro de Calderón: ele insere diversos pontos de vista sobre a mesma questão, contrapõe vários argumentos, evitando moralismos ou análises superficiais. O espectador das obras de Calderón é convidado a duvidar dos discursos. Não há uma verdade pronta, o público é desafiado a construir a sua própria versão.

No segundo ato, que também não se propõe conclusivo, os atores apresentam provas de que Jorge Mateluna não participou do assalto ao banco, e teria sido condenado por conta de falsos testemunhos. Vídeos e documentos de áudios são mostrados à plateia para denunciar a corrupção da polícia e da justiça. A identificação com a situação brasileira é imediata.

Apesar de sua aposta no discurso, Calderón não se descuida de bem contar a história que está em cena. Na montagem, são utilizados recursos cênicos que buscam estabelecer o distanciamento brechtiano, como quando o ator se dirige ao público na posição de narrador e não de personagem; pelo uso de recursos cenográficos reduzido ao extremamente necessário; e ainda pela atitude de deixar evidentes ao público as convenções do fazer teatral.

Em “Mateluna” não se percebe a tentativa de propor ao espectador o jogo de descobrir o que é real ou o que é ficção, estratégia muito comum nos espetáculos contemporâneos que se utilizam de elementos não ficcionais em cena. Se é verdade que na montagem coexistem registros do real e da ficção, isso está bem demarcado pela direção. Ambos estão em diálogo e a favor de um chamamento público por justiça.

O teatro se apresenta nesta montagem como um documento vivo que busca intervir diretamente na realidade. Enquanto a peça acontece, como conta uma das atrizes, Mateluna está no Chile preso, condenado a 16 anos de confinamento. Calderón assume o teatro como ferramenta da política. Em entrevista chegou a informar que sua peça faz parte de um esforço para libertar Mateluna. Em uma época em que a política é uma grande espetacularização, e os meios de comunicação de massa tornam as informações ficção, resta à arte contribuir para o processo de construção do real. E Calderón faz sua parte.