AGORA \ Crítica Teatral
AMADORES
Renato Mendonça (RS), de Salvador, 09/02/2017
Cia Hiato (SP), atração do FIAC, questiona fronteiras entre artista e público, entre palco e plateia
Montagem de Leonardo Medeiros costura depoimentos usando como fio condutor o filme "Rocky: um Lutador". Foto: Leonardo Pastor

Viver é para "Amadores"

A Cia Hiato (SP) gosta de propor jogos: em Ficção (2012), o desafio foi o de destrinchar o que havia de fantasia e de realidade nos textos fortemente emocionais e autobiográficos, propostos pelo elenco e pelo diretor Leonardo Moreira; em O Jardim (2011), o espectador era obrigado a montar sua narrativa articulando tempo e espaço, já que cenas em diferentes épocas aconteciam simultaneamente no palco.
Amadores, uma das atrações do FIAC 2016, propõe uma brincadeira tão singela como reveladora: o jogo de espelhos.
No início de 2016, o grupo mandou publicar em jornais de São Paulo um anúncio recrutando “artistas amadores e pessoas sem experiência no palco para espetáculo teatral”, com a garantia de remuneração. Das 200 respostas, foram selecionados em torno de 10 candidatos, que se juntaram a cinco atores da Hiato para formar o elenco da peça. A partir de entrevistas com os recrutados, Moreira e seus companheiros armaram seu novo jogo. Usando como fio condutor o filme Rocky: um Lutador (1976), estrelado por Sylvester Stallone, cada um dos recrutados e dos atores da Hiato narra sua história pessoal de superação e resiliência. O painel é amplo: uma dona de casa fala de seu trauma ao sofrer sucessivos abortos, um ex-ator pornô exibe habilidades ao violão, um imigrante angolano revela seu talento de dançarino, um estudante de ciências sociais confessa seu passado de craqueiro...
Descrito cruamente, Amadores pode parecer amador, o velho truque do "gente como a gente" colocados em cena. Mas Amadores é trabalho de profissionais. A sutileza se espalha pelas falas, pela cenografia, pela iluminação, pela maneira com que a montagem lida com o desafio de lidar com as limitações dramáticas da maioria dos recrutados. A cenografia praticamente define a montagem, resumindo-se a uma série de sofás colocados lado a lado no fundo do palco. Sim, vamos brincar de espelho: enquanto as histórias se sucedem à frente do palco, os atores observam o público lá de trás. Onde mesmo está a plateia? E o palco?
A sensação é de uma grande reunião de domingo, lubrificada a caipirinha, em que cada um se encoraja a compartilhar com o grupo suas agruras e seus talentos. A iluminação de Amadores também é emblemática. Pobre do fotógrafo que tentar captar imagens coloridas, de impacto visual, já que se tem permanentemente a sensação de que não há luz dramática, como se a direção sinalizasse que abriu mão de dispositivos cênicos para se concentrar apenas nas narrativas.
Vale aqui a lembrança de 100% São Paulo (confira crítica clicando aqui), atração na MITsp 2016. A montagem do grupo suíço-alemão Rimini Protokoll colocava 100 não-atores em cena, contando brevemente suas histórias e reagindo a temas polêmicos, envolvendo discriminação, sexo, violência e política, entre outros. Mas a atitude de 100% São Paulo é como se tomássemos a amostragem de uma população e a tratássemos de maneira racional, estatística, fria. Amadores nos coloca frente a "estudos de caso", emocionais, individuais, quentes, personagens que amam a vida apesar de tantos e tão duros percalços, o que nos força a mergulhar em cada um deles. Há histórias que não engrenam, mas isso não parece importunar ninguém, já que estamos todos entre amigos.
Há ainda um efeito colateral que deve ter sido libertador para Leonardo Moreira, indiscutivelmente um diretor talentoso, meticuloso, avesso a truques fáceis. O tom amador invade a cena, e esta informalidade permite inclusive que se concluam algumas cenas de maneira previsível, com o personagem cantando a sertaneja Aparências, ou com o refrão do tema musical de Rocky. Mas, atento ao equilíbrio entre riso e lágrima, Amadores nos oferece ao menos dois momentos redentores: quando alguns dos personagens masculinos dançam Single Ladies, de Beyoncé, ou quando a resiliência frente aos maiores desafios é celebrada ao som de uma surpreendente Lua de Cristal.
É o tipo de peça que me faz preferir andar a pé durante algum tempo depois do final da sessão. As perguntas eram muitas. De onde vinham aquela atenção e a participação que o menino de aparentes 12 anos sentado a meu lado demonstrou ao longo dos 80 minutos de peça, mesmo nos temas mais espinhosos? Como foram as entrevistas de seleção dos atores? Quais os critérios? Talento na atuação, potencial dramático da experiência relatada? Em que medida a ficção se mesclou com a realidade?
Além dos questionamentos técnicos, e principalmente, levei comigo o desafio de ser eu mesmo, de me confrontar com a própria imagem, de aceitar minhas distorções. Afinal de contas, eu seria capaz de subir ao palco como aquele crítico de cinema levemente mal-humorado? Minha história de vida é tão interessante quanto a daquele boxeador? Mudei meus conceitos. Dizia que viver não é para amadores, mas o jogo da Hiato me fez perceber que a vida é para os Amadores. Aqueles que seguem amando a vida apesar da vida.



Elenco une atores da Hiato e pessoas selecionadas por anúncios em jornais de São Paulo. Foto de Leonardo Pastor