AGORA \ Crítica Teatral
TRILOGIA ANTROPOFÁGICA
Renato Mendonça (RS), de Salvador, 28/12/2016
Atração do FIAC 2016, grupo uruguaio Perro Rabioso dispensa texto para discutir ação política
No "Ato 2" da trilogia, os atores celebram o coletivo saltando ritmicamente sobre pedaços de madeira. Crédito da foto: Leonardo Pastor

Mordida certeira

Quer ser bem-sucedido em um ataque? Aconselham-se dois procedimentos: valer-se do elemento surpresa e não revelar antecipadamente suas intenções.

Durante o FIAC 2016, o grupo uruguaio Perro Rabioso (cachorro raivoso) mostrou como essas táticas podem ganhar a cena. Primeiro, elegeu como alvo de suas mandíbulas a passividade política. Depois, desfechou ataques em locais diferentes, com estratégias diversas e sutis, sempre com o objetivo de desarmar o espectador e conscientizá-lo de que a vitória política só se viabiliza ao associamos a revelação em nível individual com a energia arrebatadora de um grupo que se assume como tal.

O resultado foi boas ideias políticas se materializando em ótimo teatro. Durante o festival, duas partes da Trilogia Antropofágica foram apresentadas em teatros diferentes, desobrigando o público de conferir ambas. Esse talvez o único erro do Perro Rabioso – não insistir para que os espectadores assistissem tanto ao Ato 1: Permanecer quanto ao Ato 2: Resistir.

Embora ainda não se tenham notícias de como será o Ato 3, ou mesmo se ele existirá, podemos encarar os Ato 1 e Ato 2 a partir de elementos da dialética hegeliana, segundo a qual se pode atingir a verdade contrapondo tese com antítese, e a partir deste conflito elaborando uma síntese. Não que Ato 1 e Ato 2 se oponham, embora sejam propostas tão diversas. Antes se pode dizer que cada um coloca em cena duas etapas de amadurecimento político, e estabelece mesmo uma relação de compromisso entre estas fases. O Ato 1, caracterizado pelo alerta a nossa condição de indivíduos; o Ato 2, marcado pelo elogio à ação coletiva. O Ato 1, marcado pelo verbo “permanecer”, reconhecendo limites pessoais, mas exaltando nossa capacidade volitiva; o Ato 2, definido pelo verbo “resistir” e por seu sentido de estabelecer contraponto, oposição a outra força. Como se o Ato 1 nos habilitasse a assumir o pronome “nós”, e o Ato 2 autorizasse a emenda da conjugação “resistimos”. Nós resistimos.

A seguir, meus depoimentos sobre a experiência de participar (mais que assistir) de Ato 1 e de Ato 2.

Ato 1: Permanecer

O bordão do FIAC é “meta a mão”, mas a palavra de ordem em Ato 1: Permanecer é botar o pé no chão. Mais exatamente, afirmar um território, marcar presença, protagonizar a cena. Quem entra na sala (no caso, o Teatro Martim Gonçalves, em Salvador) percebe que a plateia está no escuro e quase vazia, abrigando entre 15 e 20 espectadores.

Sobre o palco italiano, um tabuleiro preenchido com pedaços de carvão que ocupa praticamente toda a área livre. Na entrada do Martim Gonçalves, as pessoas recebem instruções num papelucho: “Convidamos a que você fique em pé sobre a plataforma em constante movimento. Seu tempo de exposição será determinado pela chegada de outra pessoa. Não haverá pacto nem acordo. Você decide quando subir, sabendo que deve permanecer até o momento em que alguém tomar o seu lugar”.

Chega a ser liberdade demais… Na penumbra, em quase silêncio, eu e meus parceiros de exploração observamos quando cada participante, via de regra em movimentos lentos e medidos, se dirige ao tabuleiro e rende o companheiro que lá está. É exercício de percepção do detalhe, de subversão do ritmo, de provocação pessoal.

Acompanhei por volta de 10 pessoas trilharem o carvão antes de me animar. Minha primeira inquietação era de ordem fisiológica: doeriam minhas plantas dos pés? As questões realmente moventes, entretanto, eram outras.

No escurinho do teatro, inspirado pelos gestos, iniciativas, tiques, corpos de quem subia ao palco, imaginei narrativas para cada um deles.  Ao mesmo tempo, a expectativa de decidir qual o momento de entrar em cena me provocou ansiedade, enquanto punha em alerta meu senso de oportunidade. Convocação de Instintos. Percebi que os que estavam na plateia também faziam valer suas vontades. Caso o astro do momento não exibisse um desempenho satisfatório, estimulante ou original, era defenestrado rapidamente do palco. Um elemento importante é que o tabuleiro se agitava de quando em quando, com pequenas erupções de carvão, obedecendo a um ritmo aparentemente aleatório. Alguns se reposicionavam sobre as erupções, outros fugiam acelerando o passo sobre o carvão, alguns caminhavam de costas. Minha vez. Subo ao tabuleiro, matando a curiosidade sobre como eram dispostos os fragmentos de carvão. Opto pela imobilidade relativa. Tiro os óculos e fecho os olhos. Depois, cubro-os com as mãos em busca de um maior isolamento. Nenhum homem é uma ilha? Mas eu sou, um pedaço de homem cercado de carvão por todos os lados. Os sons de erupção vêm de longe - por azar, não sou sacudido por eles. Uma dúvida me assalta: o membro da equipe, que pilota um Imac ao lado do tabuleiro, tem o poder de definir como e quando acontecem as erupções?

Com os pés doendo no carvão, percebo: sou dono da narrativa, mas ela não é possível sem a participação dos outros. Qual o sentido das coisas que faço aqui? Eu me desloco só porque há olhares me perscrutando? Ou porque consta das instruções? A cereja ficou para o final. Que vínculo se estabelecerá com quem virá me sacar do tabuleiro? Descobri que há um pacto. Quem chega guarda uma imobilidade respeitosa até que o ocupante que o precede se disponha a abandonar a plataforma. Uma afirmação de civilidade e de compromisso coletivo que se estabelece naturalmente.

De volta ao hotel, procurei vídeos da ação vestígios, da brasileira Marta Soares, que a diretora Tamara Cubas credita no programa como a obra digerida para a criação do Ato 1. Inspirada pela figura dos sambaquis (cemitérios indígenas constituídos basicamente de conchas), Marta se deixava cobrir de areia no palco e ficava imóvel enquanto um ventilador ia soprando os grãos e revelando seu corpo. Permanecer também é assim. Progressiva e lentamente, soprar-se o gesto excedente, a ansiedade cotidiana, o olhar estético residual. O ato nos desloca do que é a vida normal, do que é a arte normal. Permanecer? Absolutamente não.  

Ato 2: Resistir

Se, no Ato 1, cada espectador entrava no teatro sozinho, e quando quisesse, no Ato 2 a produção permitiu o acesso do público apenas em bloco ao Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA, e minutos antes do espetáculo. No Ato 1, poltronas à vontade, escuridão. No Ato 2, a maioria foi obrigada a sentar-se no chão, sob muita luz. No Ato 1, tabuleiro de carvão e uma pessoa em cena. No Ato 2, um mar de incontáveis pedaços de tábuas, e cinco atores imóveis sobre eles. No Ato 1, público no palco, normas rígidas e inusuais para participar. No Ato 2, a geografia mais convencional, com uma fronteira entre cena e público. Tese e antítese.

O Ato 2 logo se inicia. Os atores inicialmente estão separados, calados, apáticos. Progressivamente, percebem os sons produzidos ao pisotear as tábuas e experimentam o prazer de serem ouvidos e de afetar os outros. O isolamento se desfaz. Eles se aproximam, se tocam, começam a calcar a madeira ritmicamente em uníssono. Um esforço e um efeito que se retroalimentam. Agora, o barulho é alto. Eles se amparam, brincam, se reconhecem. Sutilmente, se deslocam para o fundo do palco e de lá se aproximam em diagonal, estabelecendo uma narrativa à medida que nossos gostos elegem seus atores preferidos e nossas racionalidade e fantasia se aliam na tentativa de prever aonde o grupo barulhento quer chegar. Não há falas inteligíveis, ouvem-se gritos, o clima evoca alguma primitiva ritualidade. O elenco se desnuda, e há suor. A luz chapada faz os corpos brilharem. Onde se vê uma mobilização cooperativa tão forte (e tão barulhenta)? Sexo, comício, torcida de futebol, concerto de rock. Ou, quem dera, durante uma peça de teatro.

O final é desconcertante. Os atores se retiram sem esperar por aplausos, alguns espectadores provam saltar sobre as tábuas. Há quem comente como o Ato 2 é perigoso, porque a madeira é crua, há farpas, pode-se pisar em falso... O Ato 2 é mais perigoso que isso. Ele faz a descrição acima se desenrolar por meio de frases curtas, numa imitação involuntária do resfolegar do elenco. Faz também com que se questione a serventia da palavra. E que se vislumbre uma identidade coletiva e comum, plena de energia libertadora e revolucionária, banhada em suor. Que implica a perda da individualidade, vá lá!, mas não se pode ter tudo. Imaginem a síntese do Ato 1 e do Ato 2? Seria de babar, uma loucura, não é, Perro Rabioso? À espera do Ato 3 da Trilogia Antropofágica.

No "Ato 1", espectadores são covidados a ocupar sozinhos um tabuleiro de carvão montado sobre o palco. Foto: Leonardo Pastor