AGORA \ Crítica Teatral
DAS MULHERES DE ANTES
Helena Carnieri, de Curitiba, 26/12/2016
Inominável Cia de Teatro, de Curitiba, revela sabores e dissabores do feminino

Mulheres em estado de resistência

Uma exposição em cartaz no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, abre um portal para um passado masculino. Nos retratos de personalidades locais pertencentes aos acervos do Museu Paranaense e do próprio MON, muitos olhos se voltam para o visitante sob luz intensamente branca. Entre as dezenas de figuras que hoje são nomes de rua, apenas quatro mulheres. As professoras Júlia Wanderley e Emília Ericksen, Hermínia Lupion e a benzedeira Maria Polenta estão lá para garantir um mínimo de representação.

O feminino, por outro lado, é a alma do espetáculo Das mulheres de antes, da Inominável Cia. de Teatro. O título engana ao fazer pensar que se trate de realidades de antigamente, já que a peça propõe uma confluência de tempos, com críticas seja ao passado, ao presente e a um futuro distópico.

O grupo curitibano utiliza texto de Assionara de Souza para falar do universo feminino, que surge não apenas sugerido ou metaforizado, mas colocado no centro dos holofotes. Digo isso porque a opressão contra a mulher parecia uma questão adormecida alguns anos atrás, como se o feminismo fosse uma força de mulheres “de antes”, como ironiza o título da peça. Como se o trabalho de quem lutou por igualdade décadas atrás já estivesse encerrado com praticamente todas as conquistas necessárias, afora alguma diferença de salário aqui e ali. A maior exposição da violência e do machismo ainda muito vivos, porém, e graves casos de abuso divulgados recentemente intensificaram essa luta. As artes não poderiam deixar de absorver e devolver essa inquietação na forma de poesia.

Vale lembrar outros trabalhos recentes que centralizam essa questão, como Guerrilheiras ou para a terra não há desaparecidos (direção de Georgette Fadel e textos de Grace Passô), sobre as combatentes do Araguaia, e Um berço de pedra (direção de William Pereira e textos de Newton Moreno), sobre as agruras da maternidade.

Um pouco além na retrospectiva, a guerra de Troia foi vista por lentes femininas nas Troianas (de Eurípedes), e as mulheres também fizeram greve de sexo com objetivos políticos na comédia Lisístrata (de Aristófanes), ou seja, a produção por mulheres ampliada que se vê atualmente não é nenhum modismo.

Então como agora, a arte é sempre política, fruto de decisões, entre as quais o próprio fazer artístico (sem dúvida, uma resistência). Mas abordar uma questão tão repleta de paixões como a vida da mulher requer ainda mais paixão e cuidados para que a exposição à luz sobreviva aos bordões.

Pois é justamente para lidar de cara com eles que a Inominável inicia Das mulheres de antes com uma enfiada de clichês. Babaquices que se diz por aí. “Mulher ao volante...”, “por trás de um grande homem...” etc. Os dizeres populares são então desconstruídos a partir do humor, recurso que o grupo utiliza em todo o espetáculo para dosar a indignação em pílulas. Ou melhor, esquetes, já que a peça é dividida em 17 cenas mais um epílogo.

Algumas gags são bem curtas, o que requer concisão e potência concentrada, ou seja, trabalho duro de dramaturgia. No clímax, as atrizes Fabiane de Cezaro, Letícia Guazzelli e Lilyan de Souza simulam uma briga de trânsito, em que enfiar a mão na buzina ganha colorações eróticas.

O texto chicoteia no tempo e no espaço. Transporta o público para um “de antes” rural, em que a mulher está irmanada com a casa e vive da espera, dos pais e irmãos que vão chegar e mandar. Súbito, estamos num contexto urbano e atual, quem sabe no futuro, em que o relaxamento só pode ser encontrado em clínicas que cobram caro por esse nirvana.

A montagem dirigida por Lilyan de Souza usa materiais e movimentações simples, como cadeiras e o ato de subir e descer delas; papel kraft; caixas de papelão das quais se retiram objetos. Na mesma toada vai o figurino, ora em peças íntimas, ora em roupas de dormir, sem caracterizar demais as inúmeras personagens que passeiam pelo palco. Acaba sobrando espaço para qualquer mulher estar ali em uma delas, ou num detalhe delas.

Mas a simplicidade não significa simplismo. O trabalho das atrizes se vê especialmente em sutilezas, ao sugerir um olhar da janela, por exemplo, ou na própria fala, que apesar de ser uma capacidade tão orgânica requer tanto exercício para acontecer com qualidade sobre o palco.

Ao evocar mulheres de antes e depois, o espetáculo dá contornos quase tangíveis a algumas delas, enquanto outras são apenas narradas, distantes, em solos, duetos e trios das atrizes.

O timing de humor é fundamental nesse trabalho que representa resistência e trabalho duro com maestria. Que mais vozes de mulher se ouçam no palco e fora dele.