AGORA \ Crítica Teatral
RÉPLIQUE
Michele Rolim (RS) e Yannick Butel (França), de Marseille (França), 20/12/2016
Primeira parceria entre os sites L’insensé (França) e AGORA é a crítica sobre “Réplique”, da brasileira Evelise Mendes
"Réplique", apresentada durante o colóquio “La critique, un art de la reencontre”, em Marseille, retoma temas da história do Brasil. Foto: Rafael da Silva

E se fosse o inverso?

Nos últimos anos, com o governo do Partido dos Trabalhadores - PT (2003 – 2016), o Brasil experimentou avanços nas políticas afirmativas, aumentou a escolaridade no País, fez progressos no combate à miséria e proporcionou que negros, indígenas e pobres pudessem entrar na universidade.

No final de agosto passado, a presidenta eleita em 2014 com 55,7 milhões de votos, Dilma Rousseff (PT), sofreu um golpe de estado parlamentar. Os defensores do impeachment são os mesmos que defendem o Projeto de Lei da Terceirização, o qual propõe precarização dos direitos trabalhistas.

Muitos acreditam que o golpe foi orquestrado para que fosse possível vender a Petrobras (majoritariamente uma empresa estatal) e liberar o pré-sal para a exploração das grandes potências. Inclusive já há um projeto para ser votado na Câmara dos Deputados que abre possibilidades de multinacionais explorarem o pré-sal brasileiro sem a participação da Petrobras.

E outros, ainda, nem sabem mais no que acreditar.

A intervenção artística Réplique[1] da brasileira Evelise Mendes, apresentada no contexto do colóquio La critique, un art de la reencontre (de 2 a 4 de novembro de 2016, em Marselha – França), retoma tais temas da história do Brasil. De certa forma, denuncia o momento atual do País, o qual se rende aos interesses internacionais.

Livremente inspirada no livro As Veias Abertas da América Latina (1971), de Eduardo Galeano (1940-2015), a referida performance trabalha essa questão dos efeitos do colonialismo nos dias atuais. Ela foi apresentada durante as comunicações dos universitários ali presentes, sendo assim uma maneira de aproximar estética e política – além de nos fazer lembrar que o livro segue atual, infelizmente. 

Ao entrar na sala do “petit théâtre” do Teatro Nacional la Criée, local onde o colóquio estava acontecendo, o público se deparava com uma mulher inerte (Evelise Mendes), embaixo da mesa onde os universitários expunham suas comunicações.  Com o ventre coberto pela toalha que vermelha que cobria o móvel, aos pés dos palestrantes – homens brancos e europeus –, sua cabeça se encontrava tombada para um lado. Em sua mão esquerda, uma língua de boi.

A intervenção era carregada de simbolismo. Ao seu lado estava um altar com imagens de jesuítas, de pensadores clássicos europeus e de colonizadores da América do Sul - sempre é bom lembrar que Pedro Alvares Cabral não descobriu o Brasil, ele o invadiu, pois povos indígenas habitavam o local. Também havia no altar açúcar (um dos símbolos da exploração brasileira) e velas.

Sendo “amparada” pela performer Isabelle Lorenzi, Mendes se manteve na mesma posição deitada, estática, durante bastante tempo. Ao mesmo tempo, a outra performer (a bailarina Anais Poulet), como um espectro triste, realizava uma partitura coreográfica na penumbra, um tanto distante do local onde se desenrolavam as falas dos participantes.

Depois de algum tempo, Mendes levanta-se e faz um movimento de virar de ponta-cabeça as imagens que ali estavam. Um ato que busca inverter o lugar da América Latina, fazendo referência direta ao artista uruguaio Joaquin Torres Garcia (1874 -1949), que, em 1941, realizou sua obra mais famosa A América invertida.

"Tenho dito Escola do Sul porque, na realidade, nosso norte é o Sul. Não deve haver norte, para nós, senão por oposição ao nosso Sul. Por isso agora colocamos o mapa ao contrário, e então já temos uma justa ideia de nossa posição, e não como querem no resto do mundo. A ponta da América, desde já, prolongando-se, aponta insistentemente para o Sul, nosso norte.” –  Joaquín Torres García.

A presença daquele corpo no chão provocava na plateia uma reação de estranhamento, que logo dava lugar ao incômodo e, por fim, à invisibilidade. As falas dos palestrantes seguiam sem fazer qualquer menção à intervenção. Sintomático.

A criação bastante orgânica e física de Evelise Mendes conseguiu encontrar seu lugar em meio aos discursos, o que tornou mais potente seu trabalho: ela é mulher, mestiça e brasileira. A artista, de 29 anos, é natural de Porto Alegre (RS), cidade onde ela trabalhou por alguns anos nos grupos teatrais Povo da Rua e Pindaibanos, e desenvolveu a graduação e mestrado em Artes Cênicas na UFRGS buscando pensar o teatro de rua como uma ferramenta de contestação política no contexto da contemporaneidade. Atualmente, em Marselha, ela desenvolve sua pesquisa de doutorado a respeito do tema Anthropophagisation de l’espace urbain: caractère transgressif et enjeu du désordre dans les mises en scène de rue, sob a orientação dos professores Yannick Butel (AMU) e Marta Isaacsson (UFRGS). Como primeira cotutela de tese em Artes Cênicas entre as duas universidades, é preciso ver tal ato artístico como um símbolo de aproximação entre ambas as partes – talvez também uma aproximação entre o Sul e o Norte.

Réplique também pode ser avaliada pela ótica espacial em que aconteceu. O espaço, tema recorrente nos trabalhos da atriz Mendes[2], permite que ela crie um novo espetáculo a cada apresentação. E, a cada apresentação, o espaço atua como discurso do espetáculo, permitindo que a carga semântica do local esteja entre as lacunas da encenação. Portanto, boa parte da intervenção está contaminada pelo que o espaço representa: no caso do colóquio, um espaço de saber.

Devido a sua ligação orgânica e física com o espaço, Réplique foi sobretudo um instante através do qual os tempos se fundiram: alusão ao tempo passado, quando uma procissão de mortos da colonização subiu ao palco para vagar à margem das comunicações teóricas; alusão a um tempo paralisado, no qual o passado colonial veio se condensar ao tempo presente... De forma estética e plástica, como uma imagem em fluxo temporal, Réplique reivindica uma memória que a mídia insiste em esquecer. Ao ver sua intervenção artística, tornou-se difícil ignorar o passado colonial – e de como ele ainda alimenta o presente. No corpo estático e vivo de Mendes, os mortos de ontem (narrados por Galeano de maneira contundente no seu Veias Abertas...) estavam convocados, presentes, indomináveis, como uma espécie de mausoléu vivo em memória às vítimas de um genocídio, de um holocausto ignorado. Com um gesto coreográfico e teatral reservado, quase invisível no seu silêncio, Evelise Mendes, Anais Poulet e Isabelle Lorenzi (três artistas da cena marselhesa) fizeram existir uma história que ainda está presente.

 

Por um pensamento descolonial

O trabalho é corajoso na medida em que busca fazer resistência frente ao movimento de dominação estrangeira que se dá não apenas pela exploração econômica, mas pela dominação cultural, que incide pelo povoamento do imaginário dos dominados, que passam a acreditar que a cultura estrangeira é um modelo universal.

 “Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço).” - Eduardo Galeano.

No mundo são inegáveis os rastros dessa colonização. No Brasil, que recebeu milhões de africanos escravizados, o reflexo pode ser visto, por exemplo, na difícil inserção do negro no mercado de trabalho. Na Europa, chegam imigrantes de países que foram suas colônias e que fogem em busca de segurança e emprego. O colonialismo segue, mudou apenas de nome, ganhou um mais pomposo: imperialismo ou neocolonialismo.  O que a atriz propõe vai ao encontro da descolonização que passa primeiramente pela afirmação do corpo. Um corpo político que está em cena, de mulher mestiça, e que representa os milhares de corpos que foram violentados e mutilados nos seus direitos.

Sem dúvida, trabalhos como Réplique pouco dialogam com espectadores europeus, já que maioria não identifica o que está por trás dos símbolos, nos fazendo lembrar que a história não é neutra: ela tem raça, gênero, religião e classe social. Ela é contada pelos dominadores e de forma perversa é reproduzida como verdade indiscutível pelos dominados. Mas Réplique, performance sem fala, coreográfica, está ali para salientar o que não podemos esquecer... Escrever História depende de escolhas. Mendes escolheu outro tipo de narração, outros símbolos, mostrando assim que outras narrativas são possíveis.

A postagem de Réplique, por Michele Rolim (RS) e Yannick Butel (França), inaugura um intercâmbio de conteúdos entre o Agora, do Brasil, e o L’insensé, da França. Confira o texto em francês no link http://insense-scenes.net/spip.php?article486 .

 

[1] A intervenção artística Réplique faz parte de um projeto pessoal da artista que se chama Répliquer dans la ville, que é o de percorrer os espaços públicos de diferentes cidades, trabalhando com atores locais, com a finalidade de abordar essa questão da colonização e de transformar em linguagem poética a ideia de uma "carta do mundo invertida". Réplique já passou por Beirute (Líbano), e será apresentada nas ruas de Marseille e de Berlim no ano que vem.

[2] Evelise Mendes dirigiu intervenções urbanas e espetáculos de rua como A serpentina ou o meu amigo Nelson (2010), livremente inspirado na última peça de Nelson Rodrigues, A Serpente; Os Dez Mandamentos da Capital (2013), paródia aos dez mandamentos da Bíblia; e A Inauguração (2013), que integrou sua pesquisa de mestrado em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).