AGORA \ Crítica Teatral
FUGIT
Ruy Filho (SP), em Santos (SP), 11/12/2016
A companhia catalã Kamchàtka conduz os espectadores pelas ruas de Santos em uma fuga ao encontro de si mesmos, durante o festival Mirada
Rompendo e estabelecendo vínculos, o público de "Fugit" reeduca seu olhar em relação a si mesmo, ao outro e à cidade

Só é possível fugir pela poesia

Sabemos que estamos em fuga. E leva tempo até percebermos se chegamos ou saímos dentro dessa história. Sem muito explicar aos espectadores, ainda que existam materiais informativos prévios sobre o espetáculo, Fugit, da companhia catalã Kamchàtka, ignora possíveis antecipações e faz do encontro o movimento primeiro à integração de cada espectador. Em três movimentos, na verdade: pela narrativa, pelo coletivo, pelo espetáculo. Por conciliar cada um deles com a manifestação do outro, sobrepondo-os gradualmente, sem ansiedade de convencer, possibilita a experiência ocorrer por outras vias. Poética, através da itinerância  junto aos atores revela a poesia que também surge nessas três camadas, e esse é um diferencial fundamental.

Narra poeticamente ao conduzir pelo olhar. Desprovido de fala, como se não devêssemos revelar pela voz a presença, duvida das origens que os idiomas acabam conciliando. O espectador é único, ele mesmo, mas é também outro, em qual reside um alguém necessariamente qualquer um. Não importa quem seja o espectador, e sim quem talvez sugira ser. Provoca, assim, a primeira e mais íntima das fugas, como atenta o título, a da própria identidade. Desprovido de dois de seus códigos de representação mais determinantes no contemporâneo - carteira de identidade e celular -, Kamchàtka soluciona de modo divertido o incontrolável apelo da permanência junto ao virtual que leva o outro a escapar para os contatos artificiais. Lá se vão os documentos e aparelhos para um saco de lixo, mala, lixo de rua e falsamente incendiados. Sem ser ele mesmo, seja como alguém-social, seja virtual, o espectador se faz a potência poética de ser todos. Não importa mais sua unicidade e solidão. Faz-se uma das arestas de um coletivo reconhecível pela qualidade desse alguém fugido de si mesmo.

Quando a cumplicidade do olhar é expandida e circula, forma-se o grupo, e desse surgem grupos divididos em fugas específicas. Partem a caminhos desconhecidos, ignorando tanto o próprio quanto o do outro. Não se sabe se haverá um retorno, um reencontro. E a poesia dessa outra camada de fuga implica no assumir a cidade como presença narrativa comum. Alguns transitarão por ruas habitadas pelo cotidiano que aceita e estranha a teatralidade do jogo, ignorando a desconfiança dos não participantes ao redor. Outros, esconder-se-ão por banheiros, estacionamentos, casas, entranhas esquecidas frente à velocidade da rotina e sua exigência pelo afastamento de qualquer existir simbólico.

Agora, o espectador é um qualquer, para além do grupo original e subgrupos circunstanciais. É também o observador trazido ao contexto poético de um sistema estranho e indeterminado, cuja certeza está em sua dimensão de desconfiança, ironia e risco. Ainda que aquelas pessoas esquisitas, trançando ruas, agachadas ao lado de veículos, em algum momento simplesmente se esvaiam, o espectador sugado ao espetáculo permanecerá com o instante de estranhamento. Ao ocupar a cidade como ambiência narrativa, portanto, Fugit implode a estrutura de funcionamento lógico, a normalidade, e constrói radicalmente fugas dos domínios do real. A presença se funde à sensação de pertencimento em um acordo poético sobre o existir ao outro e ao contexto, portanto.

Por fim, descobre o espectador em ação ser ele mesmo o espetáculo. Pode parecer muitas vezes ingênuo seu disfarce ou fuga. No entanto, entre a espetacularização da presença e o espetáculo ocorre um vertical aprofundamento do teatro como representação poética. As cenas ou instantes buscam invariavelmente atingir as relações de cada um com a memória e o desconhecimento ao amanhã. É forte o instante quando os espectadores separados no início se encontram em uma rua sem qualquer importância. É quando se percebe o quão forte as sutilezas de cada cena se acumularam e construíram sentimentos e saudades. Muitos choram. Muitos se abraçam em silêncio. E não passou sequer uma hora, desde que estiveram juntos.

Convidados a estender lençóis brancos, como que protegendo as privacidades daqueles que enfim chegaram aos seus destinos, os sorrisos retornam ao tempo em que uma infantil batalha com água recupera a diversão. Continuam estranhos aos observadores de fora, que também sorriem, ainda que não entendam. Continuam um grupo, ainda que muitos não se conheçam fora dali.  Se a fuga desse imigrante se realizou na narrativa, também se deu das artimanhas que utilizamos para nos proteger das emoções. A Kamchàtka conquista radicalmente a liberdade de sentir, reeducando o olhar sobre o entorno, a cidade, os espaços, o outro. Seria muito já, não fosse a última cena a vir.

Cerrada a visão, conduzidos a um lugar desconhecido, os espectadores são novamente individualizados, trazidos à unicidade que lhe pertence. Sentado na cadeira, ouvem-se a cidade, as conversas, os transeuntes, carros, ruídos, barulhos, detalhes. Pode-se permanecer assim por horas, se ninguém vier retirar sua venda. E depende de que cada um faça isso ao outro, convide-o a retornar à realidade. Não mais igual, pois os olhos se abrem para uma descoberta poética de tudo que ali já estava, porém ignorado pelo pragmatismo.

Permaneci muito tempo ali. Ouvindo, sentindo o ouvir, entendendo, sentindo. Era um jardim, no final de uma rua. Um jardim que parecia ser o mais belo que já estive, sem nada de mais, pequeno, sem flores, apenas um gramado. Mas era um jardim. O verde da grama surgindo inesperadamente. Dezenas de outras cadeiras vazias. De outros que ali estavam como eu, e que sumiram pela cidade e pelo tempo. Não saberei quem eram, não mais os encontrarei. Mas com a sensação de que temos uma memória em comum de algo importante a ambos. Fugit faz a saudade se tornar novamente sinônimo de uma profundo e delicado movimento de respiração.