AGORA \ Crítica Teatral
UMBIGO
Michele Rolim (RS), em Porto Alegre, 07/11/2016
Montagem do coletivo gaúcho Trilho se vale do humor para criticar consumismo, mídia e corrupção
Bruna Immich está no elenco do espetáculo "Umbigo", que marca os 10 anos do Grupo Trilho. Crédito da foto: Márcio Camboa

Eu ou você?

Umbigo, uma das atrações do 8° Fitrupa, conta a história de uma cidade fictícia, Umbilândia, que poderia muito bem ser a Porto Alegre dos gaúchos.

No Parque da Redenção, o Grupo Trilho de Teatro Popular forma a tradicional roda de rua para iniciar o espetáculo e refletir sobre uma questão de extrema importância, acentuada nesse momento político. O que vale mais: eu ou você?

Se, por um lado, o grupo adota esse formato convencional de “roda”, por outro investe em outro tipo de linguagem para falar de política, que não obedece à ordem panfletária. Nas situações propostas pelo Trilho não há a simplificação entre bons e maus, e os temas buscam gerar discussões e não propor respostas sobre questões políticas.

São temas que estão no dia a dia das cidades e fervilhando pela Capital gaúcha em época de eleições, como a corrupção e a mídia sensacionalista. O texto, adaptado por Fábio Castilhos, é composto por fragmentos de improvisação do grupo teatral.

A principal referência de pesquisa do grupo, em especial neste trabalho, é o dramaturgo e teatrólogo alemão Bertolt Brecht. Na montagem, são utilizados recursos cênicos para o distanciamento brechtiano, que vão desde cartazes com as palavras ”aplausos” e “risos”; cenário reduzido ao extremamente necessário, até a música, que é executada ao vivo com a função de comentar o texto. “Seu umbigo não é o mesmo que o meu / Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro que o seu”, cantam os atores, descrevendo bem o espírito da sociedade contemporânea.

Outro recurso do distanciamento brechtiano que o Trilho pratica é o de o ator se dirigir ao público na posição de narrador e não de personagem. O ator épico brechtiano é porta-voz do autor, trazendo uma mensagem dirigida à plateia.

Dentro dessa perspectiva são apresentadas as personas: Rick Silva (Leo Bello), José Arésio (Daniel Gustavo), Mary Maravilha (Caroline Falero) e Joana Calcutá (Bruna Immich). Rick, o narcisista; José, o corrupto intolerante; Mary, a jovem iludida que faz de tudo pela fama; e Joana, a ‘Senhora do Egoísmo’. A direção é de Caroline Falero.

Essa é a primeira vez que o Grupo Trilho leva uma peça às ruas e o faz de forma atrativa aos transeuntes, transformando exemplos cotidianos de pequenos egoísmos em elementos para um debate mais amplo e político.

Com dez anos de existência, Trilho foi um dos homenageados do 8° Fitrupa. O grupo surgiu a partir das oficinas orientadas por Paulo Flores dentro dos projetos Descentralização da Cultura de Porto Alegre e Teatro como Instrumento de Discussão Social da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, no Grêmio Esportivo e Cultural Ferrinho, antiga associação de funcionários da Rede Ferroviária Federal, dentro do bairro Humaitá, na zona norte de Porto Alegre.

Em 2011, com o espetáculo O Baú –Lembranças & Brincanças, o Trilho recebeu os prêmios Tibicuera de Melhor Direção e de Dramaturgia. Outro passo importante foi em 2014, quando ingressou no projeto Usina das Artes, desenvolvendo diversas atividades artísticas e oficinas no espaço da Usina do Gasômetro.

Nessa década de caminhada, o grupo conseguiu trilhar seu próprio caminho. É possível constatar um trabalho sólido baseado na contestação política e ideológica e também, ainda que timidamente, uma estética mais arrojada para falar de política, apostando em uma linguagem teatral não-realista ao estilo brechtiano, ou seja, propondo que os artifícios e as convenções teatrais se explicitem.

Crítica produzida dentro do seminário "As manifestações cênicas de rua - processo e crítica", durante o 8° Fitrupa

Homenageado no Fitrupa 2016, o Trilho apresentou "Umbigo" na Redenção. Crédito: Márcio Camboa