AGORA \ Crítica Teatral
LOUÇA CINDERELA
Michele Rolim (RS), de Canela, 14/10/2016
Encenada em uma celebração de “Chá das cinco”, o espetáculo da Cia Gente Falante é destaque na 28º edição do Festival Internacional de Bonecos de Canela
Manipulador e ator Paulo Fontes dá vida aos objetos Foto: Rafael da Silva

Pela delicadeza cotidiana

O teatro como espaço de encontro e humanização das relações é o mote para a criação do espetáculo Louça Cinderela, da Cia Gente Falante. Com quase 25 anos de estrada, a companhia de Salvador, sediada em Porto Alegre desde 1996, foi um dos destaques da 28º edição do Festival Internacional de Bonecos de Canela.

Inspirada na obra dos Irmãos Grimm e também Charles Perrault, com o nome de Gata Borralheira, a montagem trabalha a linguagem de teatro de objetos e contação de histórias.

A peça se inicia com o ator e manipulador Paulo Fontes recebendo a plateia como quem recebe amigos em sua casa para uma conversa próxima ao cenário, uma mesa de chá. Louça Cinderela já foi realizada em diversos espaços alternativos, contudo, há de se ficar atento ao local da encenação, como se trata de objetos e de um “happening” em volta da mesa de chá, é preciso proximidade dos espetadores com a cena. Um teatro para poucas pessoas.

Logo no início, ele relembra duas coisas que vão perpassar toda a montagem: ninguém está só para sempre e é preciso valorizar momentos de encontro.

Encenada em uma celebração de “Chá das cinco”, evento habitual e herança dos nobres do País de Gales, o espetáculo traz Cinderela como uma xícara de louça comum, sem adornos ou valor histórico, porém com conteúdo especial: sempre cheia de chás aromáticos e curativos disponíveis.

Também há de se destacar que a companhia, que sempre produziu espetáculos bastante imagéticos, com essa montagem não perde de vista esse ponto, mas também agrega valor à dramaturgia, realizando uma adaptação bem-humorada do conto de fadas.

Com direção de cena da atriz e diretora Liane Venturella (terceira direção que assina para o Gente Falante, inclusive com o premiado Circo Minimal), Fontes não apenas manipula os objetos propondo um casamento, por exemplo, entre o bule e a xícara, como também convida o público, após a peça, a compartilhar da memória afetiva desses objetos – herança de sua avó – e também a desfrutar de biscoitos e chás, fortalecendo o caráter convivial da montagem.

O espetáculo se utiliza bastante da relação da forma animada e do ator em cena, algo característico do teatro contemporâneo. Não há mais uma preocupação de ocultar o manipulador, pelo contrário, o manipulador contracena de forma clara com o objeto.  

Referência no Estado, a companhia é formada por Paulo Martins Fontes, o fundador, e Eduardo Custódio.O percurso traçado por eles está reunido no livro Cia. Gente Falante - história, processos e perspectivas – lançado no festival.

A companhia ficou conhecida fora do Rio Grande do Sul em 2003 pelo espetáculo Circo Minimal, vencedor do troféu Tibicuera de Teatro Infantil e do troféu especial do Açorianos de Teatro (principais premiações de artes cênicas de Porto Alegre). A montagem era um desdobramento das caixinhas-teatro individuais (Teatro Lambe-Lambe), configurada para atender a um público pequeno, com uma estrutura técnica em miniatura, independente e itinerante.

No entanto, foi o espetáculo Louça Cinderela (2010) que consagrou a dupla, com 7 indicações e 3 prêmios Tibicuera, entre eles, o de melhor ator para Fontes. Essa foi a primeira vez no estado do Rio Grande do Sul que um bonequeiro ganhou a premiação de ator, um reconhecimento de que existe uma preparação de ator para trabalhar com teatro de formas animadas. 

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Detalhe do cenário de "Louça Cinderela", da Cia Gente Falante Foto: Sergio Azevedo