AGORA \ Crítica Teatral
PSICO/EMBUTIDOS, CARNICERÍA ESCÉNICA
Patrick Pessoa (RJ), em Santos (SP), 03/11/2016
Destaque do Mirada 2016, espetáculo dirigido pelo mexicano Richard Viqueira faz público circular por armação com 8m de altura
Estrutura de andaimes forma cubículos onde atores recebiam individualmente os espectadores. Fotos de Matheus Jose Maria

Filhos de Cronos

No imenso hall do SESC Santos, principal sede do Mirada, o olhar dos passantes é atraído por uma grande estrutura retangular, feita de andaimes que desenham diversos cubículos localizados em platôs assimétricos, sem quaisquer paredes divisórias, atravessados em alguns pontos por minúsculas escadas espiraladas ou por grandes tubos que lembram aqueles escorregas dos parques de diversão aquática. Essa estrutura, de uns oito metros de altura, remete a um edifício cabeça de porco no qual as paredes fossem de vidro transparente, tornando acessíveis ao escrutínio público atividades que normalmente seriam consideradas privadas, como defecar, fazer sexo ou morrer.

Na hora da apresentação do espetáculo Psico/Embutidos, Carnicería Escénica, da Compañía Titular de Teatro de la Universidad Veracruzana, do México, o hall do SESC Santos foi esvaziado e os espectadores precisaram esperar do lado de fora a preparação da cena. Em dois grupos pequenos, de 20 ou 30 pessoas cada um, eram então introduzidos na sala e ocupavam uma série de cadeiras dispostas ao redor da estrutura, que formava uma espécie de fila que caminhava lentamente, sempre que tocava um sinal. Enquanto espera pela sua vez de subir na estrutura, cada espectador tinha a oportunidade de observar, de diversas posições distintas, à medida que vai passando de uma cadeira à outra e se aproximando da entrada, os estranhos habitantes daquele mundo.

Dezoito atores, homens e mulheres de idades variadas, ocupam cada um o seu cubículo. Estão nus e não se comunicam entre si. Todos realizam pequenas ações enigmáticas que, vistas de fora, convidam a variadas conjecturas por parte dos espectadores. Quem serão aqueles seres? Por que se comportam daquele modo?

À medida que os primeiros espectadores entram na estrutura, vemos que o espetáculo foi planejado para que cada espectador tenha um encontro individual com cada ator, passando de cubículo em cubículo quando toca o sinal sonoro. A instalação nos obriga a trilhar um determinado percurso. O fato de que os espectadores tomam caminhos parcialmente distintos e são obrigados a conversar com os atores, como se fizessem parte da cena, aumenta a expectativa e multiplica as conjecturas de quem a vê de fora.

Na ausência de objetos ou adereços que possam esclarecer a função específica de cada um no trabalho, salta imediatamente à vista o fato de que todos os atores, sem exceção, têm um número gravado na pele. A interpretação desses números, que vão de 26 a 85, não custa muito esforço: trata-se de sua idade biológica, que funciona a princípio como sua única marca identitária. Esse número contém uma pergunta inquietante: como seria viver num mundo onde as pessoas fossem definidas exclusivamente pela idade de seu corpo, pelo ponto de corte de sua carne?

Quando chegou a minha vez de entrar na estrutura, eu já tinha imaginado pequenas histórias para cada um dos 18 atores e, apesar da distância que me impedia de efetivamente ouvir o que eles diziam, algo como um enredo para aquela peça a princípio muda já se desenhara em mim. Essa experiência de, ao longo de 30 ou 40 minutos, ver sem ouvir e poder apenas imaginar o possível enredo do espetáculo foi para mim mais impactante do que tudo o que sucedeu depois – salvo talvez o “grand finale”.

Ao entrar na estrutura, fui conduzido até uma estreita escada em espiral, que me levou até seu ponto mais alto. Lá, uma mulher jovem, com o número 26 escrito no corpo, perguntou o meu nome, a minha idade, e em seguida me pediu que olhasse para sua barriga. Nela, pude ver desenhados de forma rudimentar seus órgãos internos, como se de súbito também a sua pele tivesse se tornado transparente – em repetição microscópica da transparência da estrutura cênica como um todo. Apontando para o desenho, ela me esclareceu que aquele era o caminho que eu estava prestes a percorrer. No mundo da peça, eu não passava de um embutido de carne – uma linguiça, talvez – prestes a ser devorada, digerida, e, finalmente, defecada. Daí o título do espetáculo...

Tocou o sinal e fui obrigado a escorregar por um dos tubos (digestivos!) até o segundo cubículo. Nele, um jovem de 30 anos, com um avental de açougueiro e uns óculos de cientista maluco que me evocaram o filme Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet e Marc Carro, me apontou a célebre fórmula de Einstein desenhada no seu braço e me disse que era capaz de fazer com que as pessoas viajassem no tempo. Me entregou então um relógio e me pediu que não o desse a ninguém, que o devolvesse apenas a ele próprio quando o encontrasse novamente.

Depois desses dois encontros, ficou claro o princípio estrutural do espetáculo: num mundo em que os seres humanos são reduzidos à sua animalidade nua e crua, ao seu estatuto de meros embutidos de carne, viajar no tempo significava poder vislumbrar, na duração condensada daquela carniceria cênica, a ação corrosiva de nosso pai Cronos que, desde que nascemos, nos devora lentamente sem que possamos perceber. O espetáculo, sob essa ótica, outra coisa não seria que um convite à contemplação direta de nossa própria finitude, ficando assim justificadas a nudez dos atores, as idades inscritas nos corpos, os seios mutilados pelo câncer de duas atrizes e sobretudo a exigência de que, nos encontros individuais com cada um deles, fôssemos capazes de suportar um longo olhar no fundo de seus olhos.

Esta proposta, a princípio mais próxima da performance do que do teatro, exigia dos atores que fossem capazes de verdadeiramente se interessar por cada um dos espectadores, por cada um de seus interlocutores. Sua presença, sua nudez, seus olhos e seus ouvidos seriam o mais fundamental para efetivamente provocar algo nos espectadores. O problema é que, em direção oposta à desse viés mais performático, muitos dos atores ficaram excessivamente preocupados em nos contar suas próprias historinhas dentro do enredo da peça. Quanto mais o ator aderia a um personagem ficcional – sempre uma forma de esconder a própria nudez – menos eu me interessava pela sua história. Além disso, o enredo da peça, que levava os espectadores a encontrar a mesma pessoa com diferentes idades – uma mulher grávida aos 28 e a mesma mulher aos 51, chorando por ter perdido o filho; o cientista maluco aos 30 e depois aos 65, feliz por não termos traído a nossa promessa de devolver o relógio que ele nos havia dado quando jovem; a moça que nos recebia aos 26 e depois a mesma moça aos 85 – era muito menos contundente e interessante do que a simples oportunidade de ver e ouvir aquelas pessoas diante de nós, em toda a sua fragilidade, isto é, humanidade. Não por acaso, o ponto alto do espetáculo era a passagem pelo único cubículo fechado da estrutura: um memorial ao ator que costumava ocupá-lo, e que morrera poucos meses antes. Ler a certidão de óbito dele, diante de sua foto nu, em apresentações anteriores, me pareceu o melhor resumo de tudo o que eu acabara de ver.

Ao fim do espetáculo, depois de uma despedida comovente daquela senhora de 85 anos, feliz por estar viva e orgulhosa pela opção de ter tirado o próprio seio para vencer o câncer, cuja mera presença física diante de mim era mais forte do que qualquer história que pudesse me contar, desci pelo último tubo – que tinha incríveis 50 metros de extensão – e dei de cara com uma caveira. Depois de me devorar, Cronos estava me defecando. A sensação, curiosamente, era menos trágica do que cômica e logo me lembrei do delírio do meu querido Brás Cubas, ao menos na interpretação cinematográfica de Julio Bressane. Dessa lembrança, cheguei à outra, um poema de Machado de Assis intitulado Uma Criatura, síntese do espetáculo que eu acabara de assistir:

Sei de uma criatura antiga e formidável,

Que a si mesma devora os membros e as entranhas,

Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;

E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,

Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;

Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,

Parece uma expansão de amor e egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,

Gosta do colibri, como gosta do verme,

E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;

E caminha na terra imperturbável, como

Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo

Vem a folha, que lento e lento se desdobra,

Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:

Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,

E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;

Começa e recomeça uma perpétua lida;

E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.   

 

 

Patrick Pessoa (RJ) viajou para o Festival Íbero-Americano de Artes Cênicas de Santos (Mirada) a convite do SESC