AGORA \ Crítica Teatral
CADARÇO DE SAPATO
Michele Rolim (RS), em Porto Alegre, 26/09/2016
Teatrofídico (RS) mergulha no universo violento e deseperançado de Sarah Kane
"Cadarço de Sapato" mescla produção dramática de Sarah Kane com relatos autobiográficos do elenco. Crédito Andrea Cocolichio

“Sujo” como o universo de Sarah Kane 

Depois de encenar textos de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Luis Buñuel e Nelson Rodrigues, a Cia Teatrofídico (RS) encontrou um autor, ou melhor, uma autora que se encaixa perfeitamente com o grupo. Inspirado livremente na obra da inglesa Sarah Kane (1971-1999), a companhia apresentou Cadarço de Sapato ou Ninguém Está acima da Redenção durante o 23° Porto Alegre Em Cena, concorrendo ao Prêmio Braskem.

Sarah Kane se enforcou com cadarços de sapato no banheiro de um hospital londrino aos 28 anos (por isso a referência no título). Apesar de ela ter desenvolvido sua carreira de dramaturga de forma intensa e breve, entre 1995 e 1999, seu teatro segue contemporâneo. Para dar conta do desafio de encená-la, o grupo gaúcho constrói, coletivamente, uma dramaturgia que mescla os cinco únicos textos dramáticos escritos pela dramaturga (BlastedPhaedra’s LoveCleansedCrave e 4.48 Psychosis) a textos autobiográficos aportados pelo elenco. Apesar de as peças de Sarah possuírem evidente cunho autobiográfico, Cadarço de Sapato não é uma biografia da autora – o caráter documental da montagem está justamente na inclusão das memórias dos atores, por sugestão do diretor Eduardo Kraemer.

 Ao longo de Cadarço de Sapato são abordados, além de depressão, temas como suicídio, canibalismo, necrofilia, pedofilia, prostituição, amores não-correspondidos, influência familiar e movimentos artísticos. O palco é dividido em dois ambientes: ao fundo está uma “espécie” de banheiro público, delimitado por uma parede transparente, como uma vitrine na qual aparecem dois grandes painéis. De um lado, o rosto de Sarah Kane, de outro, uma cortina com imagens icônicas do universo da dramaturga e dos dias atuais. No alto da cena, estão pendurados pares de sapatos e tênis. O uso de malas também é constante na montagem, representando partidas e chegadas.

 A direção de Kraemer aposta na fragmentação de cenas, troca de personagens entre os atores e forte presença da fisicalidade, mantendo o elenco em cena durante quase todo o espetáculo. Renato Del Campão e Jairo Klein (membros originais do Teatrofídico ao lado de Kraemer) estão acompanhados no palco por Adriana Lampert, Aline Szpakowski, Gustavo Razzera e Rejane Meneguetti.

O universo de Sarah Kane permite ao Teatrofídico fazer o que de melhor sabe: uma montagem marcada por diversos elementos em cena, no qual muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, flertando com emoções fortes. É um espetáculo de difícil digestão, Há gritos, mutilamentos e dor por toda a peça, no figurino “sujo” que marca o estilo Teatrofídico,. Não é à toa que esse trabalho valeu ao grupo três Prêmios Açorianos de Teatro 2015 - melhor direção (Eduardo Kraemer), ator (Renato Del Campão) e cenografia (Alexandre Navarro) -, feito inédito ao longo dos seus mais de 10 anos de trajetória.

Importante observar que esse reconhecimento na forma de prêmios chegou justamente depois de o Teatrofídico não ver contemplada em edital a continuidade de uma residência de 10 anos no Projeto Usina das Artes, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Pode-se dizer que o resultado de toda essa caminhada e exploração de linguagem está claramente presente em Cadarço de Sapato. Resta saber para onde ir agora.

Foto: Andrea Cocolichio