AGORA \ Crítica Teatral
CAPITÃO RODRIGO - A SAGA DE UM HOMEM COMUM
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 25/09/2016
Espetáculo mistura música, teatro e projeções de vídeos indo além das definições ou de tecnicalidades
Na história, Pompeu Homero (Juliano Rossi) é uma espécie de anti-herói, aclamado como justiceiro social ao se encarregar de uma série de assassinatos

Presença cênica na música ou vice-versa

Em boa sintonia, música, teatro e projeções de vídeos se unem em Capitão Rodrigo - a Saga de um Homem Comum. O trabalho apresenta uma linha esfumaçada entre as categorias artísticas pré-existentes. Seria a Capitão Rodrigo uma banda teatral ou um teatro musical? Não importa, o espetáculo garante um olhar para a obra além de definições ou de tecnicalidades. 

O nome Capitão Rodrigo é uma homenagem a Rodrigo Cambará, célebre personagem da saga O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Criada há oito anos por artistas integrantes do grupo Mosaico Cultural (muitos oriundos do Caixa do Elefante Teatro de Bonecos), a banda faz, desde então, uma mistura do regional com o rock contemporâneo. Integram a Capitão Rodrigo os atores-músicos Rafa Cambará, Cuba Cambará, Juliano Rossi, Nando Rossa, Eduardo Schuler e Gilberto Oliveira.

Podemos dizer que a Capitão Rodrigo traz como referência O Cordel do Fogo Encantado, de Pernambuco, uma das maiores novidades da nova música brasileira do início dos anos 2000. Em Porto Alegre, a referência pode ser feita ao espetáculo Tangos e Tragédias (1984), de Nico Nicolaiewsky (falecido em 2014) e Hique Gomez, que tinha como proposta investigar as fronteiras entre música, teatro e humor. Mas, ao contrário de Tangos e Tragédias, há em Capitão Rodrigo uma fábula mantendo a dinâmica dramática, texto assinado pelo ator e diretor Fernando Kike Barbosa (de Pequenas Violências - Silenciosas e Cotidianas).

O trabalho chega ao público no formato de ópera-rock (com direção musical de André Trento), ou seja, apresenta uma narrativa contada em diversas canções. Na história, Pompeu Homero (Juliano Rossi) é aclamado como justiceiro social ao se encarregar de uma série de assassinatos. Uma espécie de anti-herói. Tendo como fio condutor a música Pompeu Homero ou a Saga de um Homem Comum, as outras 10 canções se desdobram a partir dela para contar a história de Pompeu. Entre elas, estão músicas com teor bastante contemporâneo, como a que denuncia o papel da mídia na manipulação do público  (A Mídia ou Coletiva de Imprensa), a que contesta as formas de relações amorosas presentes na sociedade (Pra que casar? ou Paixão e Carência) e também as que colocam o bullying em pauta (Ciranda ou a Infância de Homero).

Apesar de a história ser bastante contemporânea, com caráter de denúncia e cenas que não se furtam a um banho de sangue, no palco o principal pilar dramático fica por conta do humor e da presença cênica dos atores-músicos. O olhar teatral na apresentação ficou a cargo da atriz Liane Venturella (de DentroFora), que assina a direção - ela já dirigiu Nando Rossa, Juliano Rossi, Rafa Cambará, no espetáculo Corsários Inversos – Uma Incrível Aventura Pirata.

Somado a isso, existe a grande capacidade dos atores-músicos de improvisação em cena - não são poucas as passagens em que eles vão até o meio do público interagir. Tateando novas formas, ainda que bebendo em fontes de outras décadas, Capitão Rodrigo faz humor com música ou vice-versa. E o grande trunfo é exatamente esse: não limitar o seu processo de criação a categorias pré-existentes e com isso manter a independência de produção para investigar linguagens mais autorais.