AGORA \ Crítica Teatral
DANÇA DO TEMPO
Michele Rolim (RS), em Porto Alegre, 20/09/2016
Montagem da Usina do Trabalho do Ator convida os espectadores a participarem efetivamente na construção da montagem
Atriz Celina Alcântara, da UTA (centro), divide cena com espectadores no espetáculo "Dança do Tempo"

Ator e espectador no mesmo patamar

O novo trabalho do grupo gaúcho Usina do Trabalho do Ator (UTA), Dança do Tempo, convida os espectadores a experimentarem a preparação de uma performance teatral.

O espetáculo de rua Dança do Tempo se divide em dois blocos. No primeiro momento, 14 espectadores são convidados a se juntarem ao elenco da UTA. Essa interação ocorre por meio de inscrições feitas pela página do espetáculo no Facebook. Quando esse número de inscrições não fecha, são convidadas pessoas da plateia no dia da apresentação. O elenco de espectadores e de atores é dividido entre o coro dos fiéis e o coro das mães. A partir disso, o UTA se utiliza do seu caráter pedagógico e ensaia diante da plateia com os espectadores selecionados. No segundo momento veste-se o figurino e, o espetáculo, com atores e espectadores no elenco, é apresentado.

Desde 1992, a UTA desenvolve a proposta de investigar o trabalho do ator e os processos imediatos da linguagem e da pedagogia teatral. Seu trabalho se caracteriza pela pesquisa autoral apoiada essencialmente nas práticas da antropologia teatral, estabelecendo trocas diretas com a companhia paulista Lume, de Luis Otávio Burnier. Nesta montagem está presente a referência à matriz africana através de influências da manifestação cultural e religiosa do congado, uma espécie de bailado dramático com canto e música. O texto incorpora lendas africanas e a história de alguns orixás, com destaque para o orixá Tempo, personagem protagonista.

No caso de Dança do Tempo, dirigida por Gilberto Icle e que tem no elenco Celina Alcântara, Ciça Reckziegel, Dedy Ricardo, Gisela Habeyche e Thiago Pirajira, o público se torna ator. Os espectadores são retirados da condição de meros observadores passivos e se transformam em protagonistas – na lógica do que o teatrólogo Augusto Boal já fez com o Teatro do Oprimido. A UTA faz o mesmo, mas entendendo o teatro como um espaço da brincadeira. O teatro faz para os adultos o que o brincar faz para as crianças, ou seja, serve de elo entre a realidade interior e exterior. Ao brincar tudo é permitido, inclusive errar. Como lembra Gisela Habeyche no início do espetáculo “Estamos aqui para brincar, sem compromisso com o acerto”.

A proximidade entre o teatro e o espectador que o grupo deseja é alcançada quando se rompe com a ideia de ator virtuoso, ou seja, quando se coloca o espectador no mesmo patamar do ator. Isso deixa evidente que qualquer pessoa pode ocupar aquele espaço, afirmando a ideia de que todas as pessoas são também atores e estão atuando o tempo inteiro em suas vidas cotidianas. O teatro então aparece neste trabalho como um dispositivo que proporciona um espaço social de encontro e, por consequência, permite que se repensem as relações socais e coletivas.

Diversas vezes o teatro ou a teatralidade foram utilizados como dispositivo que permitisse outro olhar sobre as relações, a exemplo do próprio congado, prática essa que ainda vive no Brasil, principalmente no interior do Nordeste. Mas poucas vezes se alcança um nivelamento efetivo de papéis entre espectadores e artistas na cena contemporânea. Apesar de a rua ser um espaço de diversas formas de participação, não se constituindo em novidade convocar pessoas da plateia para atuarem em alguma cena, é o ator que está no comando da cena.

Também podemos examinar por outro viés a proposta de Dança do Tempo, qual seja a de expor quase que completamente o processo de criação. Além de termos o espectador transformado em ator, não podemos esquecer que a plateia está assistindo aos ensaios e depois ao espetáculo. Se para alguns já familiarizados com processos teatrais a preparação dos espectadores para atuar pode parecer cansativo ou desinteressante, para os que não dominam a área se torna extremamente produtivo acompanhar esse processo de ensaio, muitas vezes até mais do que a própria apresentação.

De ambas a formas - tanto pela participação dos espectadores em cena quanto pela visibilidade que se dá ao processo de criação e de encenação - a UTA convoca todos a entrarem na roda e a brincar, um convite de aproximação tão necessário nesse tempo em que vivemos.