AGORA \ Crítica Teatral
AFROME
Michele Rolim (RS), Porto Alegre, 18/09/2016
Espetáculo do grupo gaúcho Pretagô propõe o convívio entre diferentes no Bar do Paulista, tradicional espaço da cultura negra em Porto Alegre
"AfroMe" é um manifesto inspirado em universos afro-festivos

Celebração em que todos estão convidados

AfroMe é daqueles espetáculos em que o convívio é o fundamental.  Mas não qualquer convívio, estamos falando da convivência entre diferentes, a única que, de fato, pode gerar mudanças significativas. O espetáculo é um manifesto inspirado em universos afro-festivos.

Peço de antemão licença para falar do único lugar possível da minha fala. Considerem que quem escreve aqui é uma branca, e tudo que isso representa. Devo lembrar também que o grupo Pretagô é formado por atores negros. A direção é de Thiago Pirajira, homem negro, que também está em cena cantando e tocando atabaque.

Os integrantes vêm do Departamento de Artes Dramáticas do Instituto de Artes da UFRGS - Bruno Cardoso, Camila Falcão, Kyky Rodrigues, Laura Lima, Silvana Rodrigues - e o trabalho, conclusão do curso de Teatro da atriz Camila Falcão, foi orientado por Celina Alcântara, mulher negra. Esse é o segundo trabalho do grupo, o primeiro foi Qual a Diferença entre o Charme e o Funk, indicado em diversas categorias do Prêmio Açorianos de Porto Alegre e vencedor de melhor trilha sonora. Nos dois trabalhos do grupo: o negro é o protagonista.

Ao assistir ao espetáculo me veio à cabeça a famosa frase “endurecer sem perder a ternura jamais”. Ao mesmo tempo em que a montagem coloca o dedo na ferida, também aproximava pela sutileza. A oscilação entre signos de violência, música e risos dão o tom do espetáculo.

No espaço cênico (um bar), os atores transformam as estatísticas em rostos. Citam nomes de pessoas negras e como foram mortas pela policia. “Capitão do mato virou policial”, dizem, enfatizando a condição de estar em um estado em que o negro é o inimigo. “Estão matando as nossas crianças”.

Também falam da história de Porto Alegre, da falsa Revolução Farroupilha e de como os negros estão sendo removidos dos centros urbanos ao longo dos tempos, agravando o processo de exclusão. O elenco questiona o tempo inteiro a plateia: “Tá bom? Pra quem?”.

A sutileza se dá de diversas formas, como no momento em que Kyky lê uma carta endereçada à insegurança, que sempre a acompanha e acompanhou seus antepassados. Uma carta de resistência e esperança.

AfroMe também atinge o público pelo riso quando brinca com os muitos papéis sociais que são impostos aos negros na sociedade, como no quadro Macumba hipster.

O espetáculo tem toda a jovialidade que a cena contemporânea pede. Presente não só nos corpos dos atores, mas também na forma de se fazer teatro. Um teatro político, sim, porém não voltado ao textocentrismo, mas ao modo de dizer que passa pelo reconhecimento e pela valorização de corpos políticos em cena.

A direção e os atores compreendem que o que falam não é só para os negros ou brancos. A fala é para todos. Que o desafio é justamente o exercício da alteridade, que nós brancos esquecemos há muito tempo e de que, nessa cerimônia, somos lembrados.

AfroMe se passa no Bar do Paulista, tradicional espaço da cultura negra em Porto Alegre, um lugar não convencional para o ato teatral, mas extremamente propício ao convívio. É possível, enquanto se assiste ao espetáculo, tomar cerveja, comer pastel e fumar um cigarro.

E mais do que isso, é permitido sair e voltar. Pelo menos naquele território e naquele instante compartilhado o trânsito é livre.  AfroMe nos mostra que um outro lugar e uma outra forma de relação são possíveis de serem construídos - não só possíveis como necessários. E o melhor de tudo: isso está longe de ser provocado pela compaixão.

Não se quer ali dizer que todos são iguais, anular as diferenças - a intenção é justamente expô-las. E dizer que somos diferentes, e que isso é bom, mas que é preciso respeito e direitos iguais. Parem com a aculturação. Que possamos exercitar a alteridade também fora daquele espaço.