AGORA \ Crítica Teatral
O CASAL PALAVRAKIS
Renato Mendonça (RS), em Porto Alegre, 18/09/2016
ATO Cia Cênica (RS) encena texto da polêmica dramaturga catalã Angélica Liddell
Personagens de Mariana Rosa e de Paulo Roberto Farias vivem às turras entre si e com seus fantasmas

A guerra dos Palavrakis

A atriz, poeta, diretora e dramaturga Angélica Liddell declara “faço uso da violência poética para me defender da violência real''. Quem assiste a O Casal Palavrakis, texto escrito por ela em 2001, mais recente montagem do grupo gaúcho ATO Cia Cênica, sai convencido de que não lhe falta munição. Durante 70 intensos minutos, o casal Mateo e Elsa combate seus fantasmas, agredindo-se com palavras, memórias, atos e substâncias as mais diversas, de leite a arroz. É uma DR em que não se fazem prisioneiros. É a convicção da incomunicabilidade. É o cair em si, e perceber que não tem fundo e não dá pé.

Liddell é conhecida internacionalmente por sua metralhadora giratória estética. Em 2014, durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), sua performance Eu Não Sou Bonita foi interrompida por ativistas que protestavam pela presença de um cavalo em cena, antagonista de Angélica em seus ataques à sociedade machista. Há poucos dias, a artista catalã de 50 anos mostrou no festival Mirada, em Santos, a montagem ¿Que haré yo com esta espada? (Aproximación a la ley e al problema de la belleza), inspirada em tragédias que ocorreram em Paris: um caso de canibalismo em 1981 e os atentados realizados pelo Exército Islâmico no ano passado. Outro exemplo: Hysterica Passio tem por tema uma criança abusada e torturada pelos próprios pais. Liddel mira na humanidade, mas a família, enquanto célula fundamental do jogo sujo social, é seu alvo preferencial.

 Na apresentação do dia 16 de setembro, a ATO armou o que poderia chamar de manobra diversionista. No saguão do Centro Municipal de Cultura, em Porto Alegre, o grupo oferecia coquetéis e bolachinhas comemorando seus cinco anos de atividade. Leveza, justa comemoração e descontração. Mas, em seguida, o público tomou assento na Sala Álvaro Moreyra e deu de cara com o casal Palavrakis, que assistia calado e impassível a um vídeo de dança na TV. Na cena seguinte, Mateo ocupou uma poltrona a pouco mais de um metro do público, e iniciou um monólogo inquietante, sobre calcinhas infantis e o que significa ser uma mulher “feita”. O senhor Palavrakis encarou uma espectadora na primeira fileira, adiantando seus quadris sutilmente quando percebia ter o controle da situação, e arrematou com a frase que define a peça e que remete a uma das principais características do trabalho de Liddell: “Não esqueça: NÓS somos as vítimas”.

O que se seguiu foi uma encenação que honra a arte de Liddell no sentido de que a potência do texto é amparada por um arsenal de imagens de impacto, em que todos saem ganhando. A trama é simples: Mateo (Paulo Roberto Farias) e Elsa (Mariana Rosa) se apaixonam ainda crianças, unidos pelo ódio aos mais velhos, pela obrigação de serem adultos, pela ameaça de se tornarem pais.  Já casados, empenham-se em vencer um campeonato de dança, mas o desafio maior é decidir se trarão um filho ao mundo. Por insistência de Elsa, nasce Cleo, que aparece morta aos sete anos, com o corpo destroçado, sinais evidentes de violência sexual. A explicação para o crime é tão evidente e doméstica como repulsiva.

Move-se uma guerra de desgaste ao longo do espetáculo. Várias vezes, os Palavrakis se dirigem ressentidos à plateia, que eles identificam como os outros, os que os estão observando e julgando. Duas câmeras no teto providenciam imagens que são projetadas no fundo do palco e amplificam a sensação de cerco e vigilância. Câmeras manuseadas pelos atores garantem que os Palavrakis contra-ataquem: eles encaram em escala gigante os espectadores, nos papéis de nossos grandes irmãos inquisidores. Fica claro que não há espaço de negociação com a realidade: os Palavrakis se entopem de arroz cru e medos, se banham de gema de ovo e de mentiras. A realidade, os invade, os agride, os deforma.

A encenação do diretor Maurício Casiraghi guarda três surpresas: quando usa uma casinha de bonecas para ilustrar a visão infantilizada que o nosso casal tem da vida adulta, quando Elsa fura um saco de leite à altura do seio, encharcando o pobre senhor Palavrakis estirado no chão, e ainda quando é feita uma tomada em big close das mãos e da língua de Mateo, sugerindo que a imagem é gerada de dentro do útero de Elsa. Mau gosto? Agressividade exagerada? Na guerra vale tudo.

Antes de sairmos do teatro, ao som de uma delicada cantiga infantil, a vida e a morte de Mateo e Elsa deixam claro que seremos todos derrotados.  É só juntar duas falas da peça, algo como: “A linguagem de nada vale quando se quer dizer a verdade” e “Depois da morte dos Palavrakis, a cidade só usa monossílabos para se comunicar e agora sabe o que é o horror”. Não dá mais para esquecer: nós somos as vítimas... e os algozes. Conviver com isso significa o que os Palavrakis tanto temem: tornar-se adulto. E deixamos a sala pisando sobre o arroz espalhado pelo chão, desviando das miniaturas de cadeiras, camas e mesas. Não adianta chorar pelo leite derramado: vamos à luta.