AGORA \ Crítica Teatral
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
Renato Mendonça (RS), em Porto Alegre, 18/09/2016
Romance de Jorge Amado ganha direção dos gaúchos Zé Adão Barbosa, Carlota Albuquerque e Larissa Sanguiné
Cassiano Ranzolin, Kaya Rodrigues e Tom Peres estrelam montagem que concorre no Prêmio Braskem 2016

A receita de Flor para a liberdade

A heroína de Dona Flor e seus Dois Maridos é uma cozinheira de mão cheia. No romance lançado por Jorge Amado em 1966, seu talento chega a nortear a estrutura da obra: vários capítulos se iniciam com receitas de pratos ditados por Flor, indicando o caminho das pedras e dos temperos para o prazer. Dona Flor agrada aos paladares: o filme dirigido por Bruno Barreto, com Sônia Braga no papel da professora de culinária, foi recordista de público nos cinemas brasileiros por 34 anos – anuncia-se para 2017 remake estrelado por Juliana Paes. Um dos espetáculos com ótima resposta de público em Porto Alegre no ano passado foi justamente Dona Flor e seus Dois Maridos, montagem com forte presença musical, dirigida por Zé Adão Barbosa, Carlota Albuquerque e Larissa Sanguiné, objeto principal deste texto.

A história da doce Flor, casada em primeiras núpcias com o fogoso e irresponsável Vadinho, depois com o chato e confiável Teodoro, é passaporte para um mundo em que nada é negado, onde a conciliação entre opostos é possível, lugar onde vige a lei “Um é bom, dois é ótimo”. Para quem não lembra, Vadinho delicia Flor na cama, mas fora dela é sinônimo de bebedeira, jogatina e sacanagem... com outras raparigas. Ele morre durante um domingo de Carnaval, trajado a rigor de baiana, e Flor se torna uma viúva triste. Até que encontra o farmacêutico Teodoro, alguém que hoje seria diagnosticado com TOC, um senhor respeitável, metódico e atencioso, tímido com as mulheres e desenvolto nas artes de Onan.  

Em meio à monotonia do casamento de Flor e Teodoro (sexo às quartas e aos sábados...), Vadinho defunto reaparece apenas para ela e promete um sexo do outro mundo, antevendo um triângulo amoroso perfeito. Flor, por fim, aceita (ah, Brasil, terra da conciliação). Embora caiba registrar que o próprio Jorge Amado dissesse que o destino originalmente previsto para Flor era conformar-se com Teodoro. Durante um sonho do escritor, a própria Dona Flor exigiu um futuro mais divertido – onde caberiam Vadinho e Teodoro -, e Jorge Amado alterou o fim do romance.

Dona Flor não é apenas uma receita sobre como aplacar as urgências do sexo: no texto, Amado defende a possibilidade de juntar na mesma cama e mesa Vadinho e Teodoro, Apolo e Dionísio, Id e Superego. Como pano de fundo, expõe uma Bahia onde Igreja Católica e candomblé convivem, em cujos cabarés confraternizam picaretas, travestis, quengas, políticos e fazendeiros de cacau. Seria como a materialização de um Brasil cordial e sem conflitos, em que o final feliz se constrói pela admissão das falhas e das qualidades dos outros, e na possibilidade de convivência entre opostos. Em outras obras, Amado retrata mais contundentemente a guerra social, mas a receita de Dona Flor poderia ser resumida por “pra tudo tem um jeitinho”. Esse alcance do texto é o desafio para todos quantos queiram provar de Dona Flor.

A montagem de Zé Adão, Carlota e Larissa se afasta de questões mais claramente políticas e prioriza a irreverência, a relativização do pecado e o prazer como balizador das atitudes. Antes de discutir aspectos da encenação, vale reconhecer o mérito de “Dona Flor” na consolidação de um mercado de musicais no Rio Grande do Sul, propondo uma montagem caprichada, ambiciosa e meticulosa que, durante a temporada no Theatro São Pedro, chegava ao requinte de dissipar uma essência aromática durante o espetáculo. A experiência e o talento de Álvaro Rosacosta e Simone Rasslan na direção musical são garantia de qualidade. Também o fato de os diretores terem escalado Álvaro para cantar algumas das canções garante um nível técnico superior.

Fosse para usar expressões afeitas aos talentos culinários de Flor, diria que o prato (a peça) agrada de maneira geral, mas exagera em alguns ingredientes e omite outros. O início tem impacto: cânticos de inspiração afro ecoam enquanto os músicos tocam ao vivo violoncelo e berimbau. O sincretismo está explicitamente em cena. E seguem-se passagens de grande dinamismo, que chamam a atenção por a direção garantir competentemente multiplicidade de focos de atenção – a intensidade e a preparação corporal do elenco é destaque. No entanto, em cenas que mereceriam um tratamento minimal e despojado, se mantém a abundância de gestos e micro-situações, uma barroquização cuja farta e incessante oferta de movimentos dilui momentos de maior emoção ou que exigiriam maior concentração.

Há menções que soam deslocadas: a presença de Dorival Caymmi em uma serenata, a homenagem a Jorge Amado. E momentos que são decisivos para que o público construa os personagens carecem de pompa e circunstância dentro da encenação. Cito dois: aquele em que Vadinho, depois de agredir Flor em busca de dinheiro para pagar suas dívidas de jogo, entrega o que conseguiu para um amigo necessitado; a cena em que Flor se dá conta de que a situação com Vadinho era insustentável e decide assumir uma posição forte dentro da relação, mas essa transformação parece surgir do nada, amparada apenas pela frase “Ninguém nasce mulher; torna-se mulher”, emprestada de Simone de Beauvoir.

O exemplo mais emblemático, de lamentar especialmente em um espetáculo que tem o sexo e prazer como focos, é a cena final, que remete a um clímax apressado. Desde o ponto em que Flor evoca espíritos para afastar Vadinho, até o happy end a três, tudo é muito corrido e superficial. Mesmo a parte musical, sempre bem cuidada, não recebe a atenção devida nos últimos minutos do espetáculo, apesar da ovação do público ao final, com a alma e o corpo lavados pelo tom libertário da peça.

Vale mencionar Kaya Rodrigues e Cassiano Ranzolin, Flor e Vadinho. Kaya, apesar da disponibilidade e do talento já demonstrados em outras montagens, não consegue construir uma Dona Flor marcante (a imagem icônica da Flor de Sônia Braga é uma sombra para  qualquer atriz). Ranzolin enfrenta o desafio de estar nu em cena por vários minutos. A difícil tarefa é conciliar nudez com deserotização – no entendimento de Vadinho, multiplicidade de parceiros não deveria ser ofensa para ninguém, o ato valeria em si, desatrelado de moral. Cassiano conquista esse tom, embora por vezes insista demais na exposição. Giovana de Figueiredo, no papel de Dona Rozilda, mãe de Flor, se destaca no início, mas poderia estar mais presente no encaminhamento do final da peça.

As escolhas da direção tornam Dona Flor menor do que é. Afinal, era ela quem sustentava a casa com suas aulas de culinária, era ela quem tolerava a imaturidade de Vadinho, ela é quem toma a decisão revolucionária de afrontar a sociedade patriarcal, mesmo que com um fantasma que só ela vê... Vadinho e Teodoro, cada um a sua maneira, são homens infantilizados, submetidos ao sexo (ou a seu recalque). Flor surgiria como o vértice do triângulo que se emancipa e propõe uma solução original.

Se as tantas e tão inquietantes questões acima não são totalmente contempladas, levar ao palco a cinquentenária Dona Flor e seus Dois Maridos é uma afirmação oportuna e necessária de que corpo e sexualidade devem ser temas essenciais, a qualquer tempo, em toda discussão sobre liberdade.