AGORA \ Crítica Teatral
O MAL ENTENDIDO
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 18/09/2016
Montagem potencializa o texto do escritor Albert Camus
Pela personagem da Mãe, Gabriela Greco ganhou o Prêmio Açorianos de Melhor Atriz

“O Mal Entendido” segue bem atual

O Mal Entendido, obra do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), cuja estreia ocorreu em 1944, é montada em Porto Alegre. Mais de 70 anos depois, seu texto ainda tem ressonância na vida contemporânea, e muito disso se deve à proposta de encenação. 

Daniel Colin, que assina a direção, vem ao longo de suas montagens abordando a questão da incomunicabilidade, como em IntenCidade 1ª: VOAR (2007) e em Viral (2014). Conhecido por atuar e dirigir o grupo Teatro Sarcáustico, suas encenações sempre trazem um sopro de renovação para a cena gaúcha no que diz respeito à estética e à linguagem sem perder o público de vista, como em Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá (2010) e CNPJ – Uma Comédia Totalmente Ficcional (2013).

Com requintes de violência, O Mal Entendido flerta com o teatro do absurdo e aborda a necessidade do fortalecimento da identidade e da comunicação. O grupo promoveu alterações na estrutura do texto original que incluem mudanças na ordem dos acontecimentos. Camus está presente com o seu existencialismo e pessimismo em relação às escolhas da humanidade.

No espetáculo de 60 minutos, Jan (Elison Couto) retorna a seu país de origem depois de viver mais de 20 anos em terras estrangeiras. Sua mãe (Gabriela Greco) e sua irmã, Martha (Fernanda Petit), que trabalham em uma hospedaria, não o reconhecem. Ele aluga um quarto para ali passar a noite na esperança de que elas o identifiquem, mas um mal-entendido provoca uma tragédia. O elenco se completa com Carla Cassapo, interpretando Marie, mulher de Jan, que volta para saber notícias do marido, e ainda com um personagem misterioso, interpretado por Pedro Nambuco, que auxilia na hospedaria. O elenco formou o grupo Teatro de Areia especialmente para encenar O Mal Entendido, mas já é perceptível em cena a conexão própria de um coletivo de longa trajetória, com atuações marcadas pelo trabalho físico e bem coreografadas.

Resulta um espetáculo extremamente imagético. O espetáculo – esquecido pela curadoria na edição do Prêmio Braskem do 22° Porto Alegre Em Cena – venceu quatro troféus Açorianos em 2015, principal premiação da cena porto-alegrense, nas categorias de melhor atriz (Gabriela Greco), atriz coadjuvante (Carla Cassapo), iluminação (Carlos Azevedo) e figurino (Antonio Rabadan).

O grande mérito da montagem está em atualizar a potência do texto de Camus a partir da horizontalidade de todos os elementos em cena. Começamos pela espacialidade cênica. Criado a partir de uma residência do grupo no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo buscou reproduzir em espaços que não de arena a proximidade com os espectadores e a possibilidade de estes assistirem à cena por diversos ângulos.

Ainda que a performance dos atores e o texto sejam o eixo, elementos que poderiam ser desvalorizados ganham protagonismo, atualizando a encenação. A iluminação de Carlos Azevedo dá o tom sombrio que o espetáculo pede, e os figurinos de Antonio Rabadan trazem elementos de época e contemporâneos. Assinada por Beto Chedid, a trilha sonora, por sua vez, reforça o clima das cenas de violência e de suspense.

O cenário, assinado por Marco Fronckowiak e Rodrigo Souto Lopes, transforma o espaço ora em estalagem, ora em rio, valorizando um elemento que julgo fundamental e que perpassa toda a encenação: a água. A presença do fluído provoca instabilidade cênica, permitindo interpretações variadas como cura, renascimento, limpeza, movimento e, sobretudo, adaptação, na medida em que o líquido sempre irá tomar a forma do recipiente que o contém. Esta capacidade de se adaptar está presente especialmente em Martha e em sua mãe, que se caracterizam pela resiliência quando estão confinadas ao mesmo lugar e rotina por anos e ainda assim alimentam um desejo de mudança (Martha chega a afirmar que o que possui de mais humano é seu desejo).

Um retrato muito bem feito por Camus sobre a vida entendida a partir da ótica trágica e absurda, que ganha uma nova dimensão pelas mãos de Colin e grande elenco.