AGORA \ Crítica Teatral
CONCENTRAÇÃO
Michele Rolim (RS), em Porto Alegre, 01/09/2015
Reality shows inspiram montagem da gaúcha Ana Paula Zanandréa
Em "Concentração" cinco atores interpretam mais de 30 personagens

Ácido que não corrói

O reality show é uma construção caracteristicamente contemporânea. Nele, a realidade e a ficção estão de tal forma misturadas que não se sabe onde termina uma e começa a outra. O espetáculo Concentração, exibido no Teatro de Arena em Porto Alegre, gira em torno dessa questão.

No palco os atores Frederico Vittola, Miriã Possani, Pedro Nambuco, Priscilla Colombi e Sofia Vilasboas simulam um reality show. Em vez de “brothers” ou “sisters”, levam ao espectador pessoas encarceradas em um campo de concentração. Os atores representam diferentes papéis: são os organizadores do programa, os prisioneiros, os guardas e também a audiência responsável por escolher quem deve morrer.

Esse tema chega com força no contexto brasileiro, em um momento político de polarização no qual multidões vão para as ruas sem saber ao certo o que reivindicam. E também de exacerbação de preconceitos, de violência e de retrocessos que são apenas reproduzidos nas mais diversas mídias sem serem questionados, formando uma audiência servil e sem consciência.

Para discutir o assunto o grupo partiu da novela Ácido Sulfúrico, da autora belga Amélie Nothomb, conhecida por autobiografias como Sabotagem Amorosa. Ao ser adaptada para a cena, a novela foi trazida para o contexto brasileiro, servindo de ponto de partida para a construção de uma dramaturgia nascida na sala de ensaio, com base nas improvisações dos atores. 

 A encenação aposta em personagens com traços melodramáticos, gênero privilegiado pela televisão. Os estereótipos estão todos ali: o apresentador do programa, a mocinha, o bandido, o gay e a repórter. Assim, pode-se dizer que a peça apresenta um conjunto de personagens típicos da televisão, com todos os seus excessos, o que acaba reafirmando os clichês pretensamente criticados pela montagem - os personagens deste espetáculo são estereótipos do estereótipo. Nesse ponto está a fragilidade do trabalho dramatúrgico, que bombardeia o espectador com perguntas cujas respostas estão dadas de antemão. Nos reality shows, os espectadores sabem que estão sendo enganados, mas mesmo assim gostam. Por isso, não adianta apenas expor o processo. Caberia ao teatro produzir um mal-estar real na plateia diante das consequências da manipulação – o que a montagem não alcança.

 A repetitividade do texto também é um problema. Aparentemente o grupo não dispensou nenhum diálogo durante esse processo de criação coletiva, tudo foi agregado ao trabalho. Em Concentração o texto tem cinco atos e diversos finais que reiteram, ao longo de todo o espetáculo a mesma denúncia feita desde a cena inicial: a manipulação de todos por todos.

Esse é o segundo espetáculo da jovem diretora Ana Paula Zanandréa. O primeiro, O País de Helena, era uma trilogia livremente inspirada nos contos de Eduardo Galeano sobre a vida humana e suas diferentes fases, reveladas sob a ótica de uma mulher. Uma das características da sua produção é colocar no palco quase em tempo integral todos os atores e fazer inúmeras trocas de cena.  Em Concentração, os cinco artistas interpretam cerca de 15 personagens e mais 18 espectadores. Isso lhes tira a possibilidade de desenvolver melhor cada um deles. Vale ressaltar que eles não formam um coletivo, mas foram convidados pela diretora para a realização desta peça. São poucos os que já trabalharam juntos, o que enfraquece o resultado da criação coletiva.

 Ao final da montagem os espectadores estão da mesma forma como se houvessem assistido a um programa de televisão. Não são oferecidas ao público lacunas para preencher com a imaginação e a emoção, tudo está lá, dado. Ocorre apenas uma transposição exacerbada do que acontece na televisão ao longo de toda a encenação. A pergunta é: por que fazer uma reprodução da televisão com todos os seus excessos no palco sem aprofundar a crítica?