AGORA \ Crítica Teatral
MEDEAMATERIAL
Renato Mendonça (RS), em Porto Alegre, 18/08/2015
Coletivos gaúchos GRUPOJOGO e vai!ciateatral montam Heiner Müller
Fernanda Petit e Vinicius Meneguzzi em "Medeamaterial"

Uma festa de exageros

Os coletivos gaúchos GRUPOJOGO e vai!ciadeteatro decidiram comemorar juntos seus aniversários, promovendo uma festa teatral em que o convidado principal é o dramaturgo e diretor alemão Heiner Müller e seu texto Medeamaterial. Se você quiser comemorar junto, prepare-se: a festa dura escassos 50 minutos mas coloca em cena um teatro físico de atuações extremadas, nudez completa, simulações de masturbação e estupro, com terra, instintos e escaramuças entre homem e mulher explodindo a todo momento. Uma festa de exageros, um teatro de extremos.

Medeamaterial é a culminância de uma série de leituras dramáticas, discussões, oficinas e performances que o Jogo e a vai! realizaram nos últimos meses para estudar o teatro de Heiner Müller (1929-1995). A investigação parece ter estimulado nos grupos a coragem e a autonomia para se distanciar do texto original. Quem lê os textos Margem Abandonada, Medeamaterial e Paisagem com Argonautas (1981), que serviram de base à montagem em cartaz no Teatro Goethe de Porto Alegre entre 23 e 26 de julho de 2015, enfrenta um exemplo típico da dramaturgia de Müller. Um teatro pautado pela hegemonia de monólogos poéticos, por frases aparentemente desconexas que expõem a desolação de viver em um mundo de ideais traídos, regido por jogos políticos e sociais nos quais o indivíduo é sempre o perdedor, em que homem e mulher reproduzem na relação a dois os mecanismos de opressão que se estendem a milhões.

Alexandre Dill, entretanto, descarta o viés político e centra sua montagem na disputa de poder e de sentir entre mulheres e homens. Fiel a seu estilo, opta por colocar em cena apenas o indispensável para reforçar o conflito. Em Para Acabar com o Julgamento de Deus (2010), de Artaud, encheu o palco de terra e vasos sanitários para materializar o atoleiro da busca da identidade. Em A Noite Árabe (2013), de Roland Schimmelpfennig, a volatilidade das relações retratadas no texto ganhou forma em paredes que se deslocavam sobre o palco. Em Medeamaterial, Dill elege a água e a terra como seus signos. A água, ou o sangue, é o feminino, o que se adapta, o que abriga o feto, o que é dificil de definir. A terra, ou a pedra, é o masculino, o que é imutável, inexpressivo, previsível e determinado.

O palco do Goethe está praticamente nu, ocupado apenas por uma pequena piscina. É o campo de batalha para Fernanda Petit/Medeia e Vinicius Meneguzzi/Jasão medirem suas forças. A impressionante cena inicial, no entanto, já indica quem sairá vitorioso: Jasão impassível é cheirado por Medeia, sinalizando uma relação de dependência que será mantida ao longo do espetáculo, em que a fêmea é submetida, estuprada e forçada a renegar suas convicções por submissão aos seus ferormônios. Na primeira metade da peça, ela se submete a Jasão. É o reino da pedra, do falo, da truculência. Na segunda metade, Medeia mostra suas armas quando atrai Jasão para sua cama, a piscina de água. O macho, que antes havia exercitado com desinibição seu papel de predador estraçalhando um peixe cru com os dentes e estuprando sua companheira, cede temporariamente ao poder da sedução. O final do espetáculo, entretanto, reafirma a vitória do macho quando Jasão soterra Medeia nua, depois a venda e finalmente a abandona. A mulher está condenada ao pior dos castigos: não adianta rogar por um espelho, a ela é proibido o direito de se enxergar, de confrontar-se com sua identidade. A pergunta-chave do texto - “Quem tem os melhores dentes? O sangue ou a pedra?” - está respondida.

Em uma festa de tantos exageros, a direção de Dill também acerta e erra com a mesma disposição. Acerta na escalação do elenco quando aposta em Petit, conhecida por suas atuações emocionais e arrebatadas, e em Meneguzzi, um ator técnico que incorpora bem a frieza daquele que mata o que ama. Está correto também na opção pela nudez, uma demonstração de força frente a um Jasão que oculta as formas de seu corpo em um capote. Mas os trechos de Margem Abandonada e Paisagem com Argonautas, no início da peça, parecem deslocados na medida em que o conflito central é mesmo o embate Jasão/Medeia. Os trechos em off, que trazem as sugestões de ambientação propostas por Müller, erram de tom, soam empostados e dispensáveis no conjunto da encenação. Algumas intervenções da trilha sonora, sentimentais demais, enfraquecem o texto e não cumprem uma função de contraste ou oposição dentro da encenação.

O principal mérito da festa de exageros proposta por Dill é não facilitar a vida do espectador. Medeamaterial não apresenta um conflito – afirma que já há um vencedor. São 50 minutos agudos, de provocação deliberada, de imagens por vezes desagradáveis que desaguam em um final infeliz e que enterram qualquer acordo de paz entre homem e mulher.